sexta-feira, 30 de março de 2007

Bilhete de realejo

Venha munido de gritos.
Descarrega um pente todo daquelas palavras espumantes.
Deixe que borbulhe...
E quem sabe assim, você se sinta melhor.

Jogue as barbaridades para adiante, solte a incompetência de teu peito sobre o meu. Faça das suas inseguranças montanhas e diga-me para montá-las.

Repouso.
Pouso de novo.
De onde nunca deveria ter voado.
Aprendi na melhor chicotada ­--- Doce! Doce e querida! --- sentir aquilo que consome. Me-some.

Achava eu bastar em conjunto, hoje basto só.
Escorre o suor fétido da desintoxicação, palavras augustianas que ouvi de mal conhecedor, felizes me escapam agora.

Compensa o vazio que tem! O mesmo que tentava comigo encher.
Enche, me enche.
Estouro.

A velha ladainha risca disco em meus sentidos.
Vejo o som dês-a-sentidado daquilo que descarrega.

Atira em mim!
Vamos! Que custa?!
Atira que quero os gritos do palavrório.

Arromba a porta já aberta para cansar-se!
Que te olho do fundo do quarto com um murmuro-risonho.
Vejo o circo que faz de camarote, lá vai o palhaço chorão.
O macaquinho de realejo mal humorado.
O leão castrado.

Minha vida virou picadeiro.

Venha! Descarrega! Mata meu corpo! Esperneia! Estrebucha até estertorar!

E se o barulho é alto não canso de me rir!

Baixa a lona do circo que esta na hora de ir, ao sair, por favor, apague a luz, encoste a porta e não se esqueça de levar os elefantes com você.

Boa noite.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Juro! Não sou diabética!

Nessa casa nada funciona como devia

Tudo mais ou menos completamente esquisito

Ah!!! Vócê é toda esquisita! Lagarta listrada!!!

Por que a loucura
é até mesmo
formigas andando DENTRO da pia no banheiro.

Não preciso concluir com mais nada...

domingo, 25 de março de 2007

Helena 7

Estava toda consigo. Presa em si como de costume. Já havia se conformado com as formas arredondadas, aprendera até a apreciá-las.
Nua em vergonhas sem-vergonhas semi-vivia ao lado do amante na cama. Aquele momento mórbido, quase clarisseano, que implora para ser vivo... Mas é morto.
Repousava o corpo. Ele dormia, ela pensava. Os sexos quentes.
Respirava de forma voluntária mantendo-se (de) presente.
A insônia a fazia admirar aquele que permanecia ao lado. Era belo e seu gosto era bom. Tanto aos lábios quanto ao toque.
O costume de entranhar os que ficavam por perto já era vício, nada como ter companhia ao verme que vivia dentro dela, solitária querida.
Não sabia mais ficar sozinha, mesmo estando apenas consigo o tempo todo. Mau hábito que adquiriu ao longo dos anos, os cultivava com mãos na terra. Carpir.
Apenas era, e não via motivo para não ser. Existia e já lhe havia passado há tempos o momento mental que via motivo para não existir.
Helena tinha grandes olhos castanhos perseguidores e manias animais para usá-los. Espreitava a presa, dava o bote, deglutia e quando dava-se por satisfeita virava as costas e partia.
Era isso toda Helena.
Seus olhos olhadores olhavam o rapaz. Dormia tão sereno e tão risonho que parecia em leito e mortalha. Foi quando percebeu-se costurando um sorriso nos lábios como se responde-se aos sonhos do amante.
Estava com ele fazia mais tempo do que podia imaginar e até aquele momento não havia se dado conta disso.
O sorriso desmantelou-se súbito.
Não pela epifania chula, mas sim pela percepção de si. Se ele dormia e ela sorria... Helena percebeu que quando estivesse só não sentira falta de uma companhia qualquer e sim daquele corpo, daquele gosto...
Sentou e as mãos procuraram os cabelos soltos sobre o rosto. Como se quisesse tirá-los dali para poder enxergar mais um palmo adiante.
Não precisou pensar para meter-se nas roupas, tão pouco para abrir a porta do quarto e sumir pelo corredor.
Os tênis desamarrados ganhavam a rua.
Não queria.
Não podia.
Os hábitos são vícios compulsivos. Não procurava entender.
Deixou as questões para o verme.
Seguiam juntos e sozinhos para casa mais uma vez.

domingo, 18 de março de 2007

Passos de boneca

Eu JURO que tentei

Nossa e como tentei

Tentei até que o perturbamento me impediu de continuar

Que des-prego palavras que não encontro

NÃO

CONSIGO

CONTINUAR

Posso escrever uma epopéia

Mas, camões que me perdoe...

Amar é tão deturpado
Que é impossível se declarar


MALDITAS PALAVRAS

Desorganizo
perturbo

E ao termino das coisas
Odiei cada silaba que escrevi

LIBERTA!

Para poder

apenas

sentir...

sexta-feira, 16 de março de 2007

Ato falho

Você fez mais um aniversário
É eu soube
Alguém me contou

Você talvez tenha feito a festa com balões coloridos
Mas isso ninguém me falou

Varrido o tempo com os confetes da festa
E daquilo que fomos
Você fez mais um aniversário

Minha lembrança não comemorou

O dia de março existiu
E foi o mesmo dia do ano passado
Embora dessa vez tenha sido somente
Um dia de março

Sua ausência enfim se ausentou
A visão disso me entristeceu
A parte que me completava morreu

Agora sou eu e toda eu
Sem “contigo” e os outros tantos oblíquos

Tenho ódio de versificar as linhas
Mas se passou
Virou poesia para viver mais um dia
Um dia depois daquele de março

Você fez mais um aniversário
Minha memória acabou

quinta-feira, 8 de março de 2007

Bumba

É a moldura do mundo
duas vezes por dia

uma com sono

outra com fome

chacoalha
espreme
cheira mal

chama

dia
a
dia

na pintura viva eu parada o mundo movendo

o padre franciscano usando jeans por debaixo da batina chuta um cachorro que dormia

dia
a
dia

terça-feira, 6 de março de 2007

Sem mais entrelinhas

Quero fazer sexo com todas as pessoas do mundo.
Sem pudor.
Que não tenha, também, que pensar no dia seguinte sobre o futuro inexistente das coisas.
Ato pelo ato.
Ah! Eu queria despir a vergonha e dês-pedir a saudade.
Para que a carne fosse enfim carne. Desmetaforisada.
Apenas cheiro.
Gosto.
Calor.
Cor.

Todas as nucas caçam com os olhos de medusa.
As beijo, todas, na minha distância infinita e os lábios de pantera viram sabiá.
Gosto assim.
Sexo e sexo... As favas com “fazer amor”.
Amar é tempo e paciência, ambas incluídas em meu racionamento mental. Exauridas.
Pinga. Pinga. Pinga. Lembrança mal fechada.
Bebo, então, o resto putrefato.
Esfaqueia o sentimentalismo.

Espírito sem vergonha! Corpo desnudo mostra as vergonhas!

Chocar alguns cristãos com o paganismo só para ver se o filhote vinga.
Vingança rebelde. Em a-razão calculada.

Boemia e libertinagem.
Crucifixo e água benta.

Terrorismo poético.
Terrorismo patético que expõe o que todos temos por fora. Redundância superlativa que faz estilhaçar queixos.


Em cacos é mais fácil comer os pedaços.
Nada ali quer ser compreendido.
Deglutir.
O suficiente para tornar verdadeiro o desejo bipolar. Para que essa verdade (já tão enrugada) tome forma em minhas mãos.
Costura tudo da mesma carne apodrecida.
Borda com pele viva.
Indiferenciados. Todos os corpos são iguais em grandeza e desejo.
Do amor ao paraíso.
Palavras só montam sexo dentro da minha cabeça.
Fora dela sexo se monta no corpo e na vontade.