domingo, 25 de março de 2007

Helena 7

Estava toda consigo. Presa em si como de costume. Já havia se conformado com as formas arredondadas, aprendera até a apreciá-las.
Nua em vergonhas sem-vergonhas semi-vivia ao lado do amante na cama. Aquele momento mórbido, quase clarisseano, que implora para ser vivo... Mas é morto.
Repousava o corpo. Ele dormia, ela pensava. Os sexos quentes.
Respirava de forma voluntária mantendo-se (de) presente.
A insônia a fazia admirar aquele que permanecia ao lado. Era belo e seu gosto era bom. Tanto aos lábios quanto ao toque.
O costume de entranhar os que ficavam por perto já era vício, nada como ter companhia ao verme que vivia dentro dela, solitária querida.
Não sabia mais ficar sozinha, mesmo estando apenas consigo o tempo todo. Mau hábito que adquiriu ao longo dos anos, os cultivava com mãos na terra. Carpir.
Apenas era, e não via motivo para não ser. Existia e já lhe havia passado há tempos o momento mental que via motivo para não existir.
Helena tinha grandes olhos castanhos perseguidores e manias animais para usá-los. Espreitava a presa, dava o bote, deglutia e quando dava-se por satisfeita virava as costas e partia.
Era isso toda Helena.
Seus olhos olhadores olhavam o rapaz. Dormia tão sereno e tão risonho que parecia em leito e mortalha. Foi quando percebeu-se costurando um sorriso nos lábios como se responde-se aos sonhos do amante.
Estava com ele fazia mais tempo do que podia imaginar e até aquele momento não havia se dado conta disso.
O sorriso desmantelou-se súbito.
Não pela epifania chula, mas sim pela percepção de si. Se ele dormia e ela sorria... Helena percebeu que quando estivesse só não sentira falta de uma companhia qualquer e sim daquele corpo, daquele gosto...
Sentou e as mãos procuraram os cabelos soltos sobre o rosto. Como se quisesse tirá-los dali para poder enxergar mais um palmo adiante.
Não precisou pensar para meter-se nas roupas, tão pouco para abrir a porta do quarto e sumir pelo corredor.
Os tênis desamarrados ganhavam a rua.
Não queria.
Não podia.
Os hábitos são vícios compulsivos. Não procurava entender.
Deixou as questões para o verme.
Seguiam juntos e sozinhos para casa mais uma vez.

Um comentário:

Alice disse...

temos um HELENA no blog?
estou impressionada...
pera que vou ler com calma agora