Meu Pai morreu.
Não sei exatamente se no fim da noite ou durante o amanhecer. Não importa. Tropeçou em uma hora vaga e ficou no caminho, estirado e gelado no chão de carvalho.
Faltou a mim, contudo, a curiosidade para perguntar o que havia acontecido. Ataque cardíaco, aneurisma, pneumonia, coqueluche, hepatite, bebedeira, nó nas tripas... Basta saber que morreu.
De que morreu seu Pai?
Papai morreu de morte morrida.
Jazia ali adiante, taciturno e mal humorado como de costume, não fossem as mãos cruzadas sobre o peito estático talvez o desse por vivo.
Estirado em cima da mesa de jantar da sala. Onde ainda ontem almoçávamos peixe com batatas, onde muito em breve vou tomar café da manhã. Por cima das últimas gotas de suor frio de meu pai.
Eram oito velas. Quatro dentro do espelho outras quatro fora dele, enfeitavam as quinas da mesa os cotocos amarelados de cera.
Algo quase mágico acontecia na cena e eu miúdo e esquecido no canto da sala, como de castigo, assistia atento a peça. Mamãe melancólica olhava para o defunto, exibia o rosto inchado e um lenço molhado entre os dedos compridos.
Às vezes alguém atravessava a porta, silencioso e todo urubu, chegava com passos arrastados perto de Mamãe com um sorriso quase sentido e um abraço frouxo.
Uma pena, nos deixou tão jovem.
Meus sinceros pêsames.
Era um grande homem.
Não fique assim, com certeza ele esta em um lugar melhor,
É mais um anjo para orar por nós.
Papagaiavam as mesmas frases, Mamãe respondia com meio sorriso e, vez ou outra, algumas lágrimas. As vezes eu a via levando uma mão a boca e a outra aos cabelos, por um segundo passageiro eu tinha certeza que cairia no riso.
A gargalhada gutural, longa e asfixiante.
Recompunha-se. Depressa. Lançando então um olhar pudico e molhado de volta para meu Pai.
Eu a entenderia. Talvez me unisse a ela para que fizéssemos uma sinfonia familiar. A censura, contudo, seria mais do que poderia suportar.
Dona Francisca deixaria cair a bandeja de bolo de fubá, assados especialmente para a ocasião, Balthazar esmagaria o chapéu coco entre as mãos, talvez Dalva e Justina depois de um segundo perplexo correriam para acudi-la, seria necessário conter a loucura.
Horrorizados.
A tristeza deve se desfazer em lágrimas, de preferência contidas, os adultos não devem fazer barulho quando choram.
E se de repente me acometesse a vontade insana desse riso de Mamãe.
Não chorava, nem gemia. Não estava pálido, nem trêmulo. Só conseguia sentir culpa, justamente porque não sentia nada.
Onde se esconderam? A tristeza, a melancolia... O maldito desespero não vinha!
Inerte e munido de grandes olhos secos que perceberam a sala anormalmente escura naquela manhã. Nada além daquilo me incomodava, na verdade, a falta de luz quase me incomodava, não levantaria para abrir as cortinas ou acender o abajur...
O bolo foi sumindo, pedaço por pedaço, as xícaras sujas de café uma a uma apareciam pelos cantos.
Foi então que alguém levantou. Espreguiçou felinamente e arrastou os passos até Mamãe, evitando olhar diretamente para o defunto. Escolheu aleatoriamente e recitou mais algumas daquelas frases baixinho... Porque baixo? Certamente papai não reclamaria.
Enfim, meteu o chapéu na cabeça.
Meus pêsames.
Partiu.
Pouco a pouco encontravam coragem para sair. Deixar a viúva sozinha soava tão errado, mas o tédio eventualmente transbordava aqui e ali.
Meus pêsames.
Partia.
Meu pai seria para aquelas pessoas um pensamento breve ao longo do dia e a fofoca de amanhã. Não era importante o suficiente para sair na manchete do jornal, o obturario de poucas linhas parecia justo... Suficiente... Conformado.
Seria resumido ao assunto de D. Francisca na igreja, de Balthazar na barbearia ou de Dalva e Justina com as demais empregadas do bairro.
Sabe o homem alto que morava na 207 daquela rua ali atrás com nome de santo? Então! Ele morreu!
Deixou mulher e filho pequeno. Muito triste.
Ah! Acredita que a Carlota apareceu! Não achei que fosse dispor de tanta coragem e atrevimento! Ainda mais vestindo uma roupa tão pouco apropriada para um velório.
Não vi ninguém do trabalho... Poxa... Ele me parecia tão querido.
Papai viraria então assunto secundário, o bolo o café, a falta de chá, a tristeza de mamãe, meu destino, a roupa de Carlota seriam os personagens principais dessa comédia.
Não os condeno.
Realmente é um tópico pouco interessante para quem não tem um defunto estirado na mesa de jantar, em suas casas sobre a mesa apenas a toalha, os pratos, os copos e talheres.
Não haveria também a ausência da louça no dia seguinte.
Mamãe por fim se recolheu, Dalva e Justina levaram as xícaras para a cozinha.
Fiquei sozinho com restos de Papai, as velas, o espelho... E a falta de louça.
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