quarta-feira, 16 de maio de 2007

Helena 5

Tocava o espelho com certa admiração perdida, as pontas dos dedos riscavam seu reflexo . Podia ver-se em plenitude, deliciar-se por completo. Estava nua diante de si, via a verdade ali refletida. Acreditava em seus olhos, que sempre foram seus.
Suas curvas eram perfeitamente humanas, não mantinham o padrão das capas vagabundas das revistas, mas a agradavam. Os traços pareciam familiares e o sorriso indocil completou seus vapores apanterados.
A boca ressecada mordeu-se. A mão foi de encontro sentí-lo. Como se o desejo incontido estivesse ali na pele gritante de poros abertos. Exibia-se sabiá, tinha, contudo, as penas anoitadas.
Helena era ponto aleátorio toda costurada em carne e sangue. Ponto. Às vezes a perturbava perceber a momentaniedade. O que é superlativamente impressindível torna-se antes que percebamos tédio, monotonia... Deve ser esquecido.
Era ponto de convergência, mas divergia.
Diante de seu olhado reflexo pensava em si despensando em si sendo si des-sendo si, descia as mãos por si. Mãos encandidadas pela falta de sol, marcadas por toda a loucura passada. Superlativo! Que passado o dia cedia ao sen-sen-tidismo.
Se gritasse pecado, ninguém ouviria, nem a própria Helena, nem Helena refletida. A regra fora desrespeitada ontem, hoje outro dia.
Faltava-lhe o remorsear, faltava dar valor às árvores que plantara no jardim. Estariam lá no dia seguinte. Para o inferno! A vida dura na história menos de um dia.
Erva-daninha do jardim daquelas rosas-rosas.
Vivia.
Os lábios finos libertaram um sorriso igualmente fino. Apaixonara-se por aquele momento de auto-julgamento. Senhoras e senhores membros do juri... Helena entranhou a todos vocês.
A verdade a via de volta amigavel, acariciando o que tocava. Deixem-na com seu prazer bipolar. Com o pavonear de suas inseguranças. Com os caleidoscópios que misturam as reaissurrealidades.
Um segundo de distração.
Os olhos a olharam de volta. O gosto amargurado voltou-lhe do estômago. Não era mais Helena que via o reflexo, mas o reflexo que a via.
As mãos descolaram do corpo, contudo a vontade própria de sempre era familiar, estranguladora. A boca costurou o riso. Os ouvidos ouviam gritos gritados. Gritavam tudo que não queria ouvir.
Sentenciavam seus dias anteriores, seus prazeres de ontem. Ponto de carne e sangue sentia o desalinho, vozes rotas que não podia suportar.
Seus dedos apertavam as palmas, perfuravam-nas. Redenção. Redenção? O flagelamento desencadeado, maquinal, automatizado. Bastaria? Serviria? As mãos estranguladoras eram menos doloridas do que as palavras igualmente estranguladoras.
As dúvidas cessaram de súbito com o emudecer dos gritos e com a explosão. Os olhos queriam fechar. Não fecharam. A mão queria abrir. Não abriu. O corpo queria cair. Não caiu.
O braço subiu.
Helena em cacos no chão.
O ponto costurou seu sorriso na carne.
Helena saiu.
Para amanhã não se importar com ontem.
Pecar?
Divergir.

Nenhum comentário: