Hoje
fui passear com o cachorro que não tenho
ou melhor
com o cachorro que nunca tive
acontece que...
na volta...
Ele fugiu...
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
Despossuir
É preciso.
Muitas coisas são precisas...
E ainda assim reluto em aceitar essa necessidade de ter, de ter que ter.
Não me neguem meu próprio desapego, não discutam comigo o que é trivial. Minhas opiniões me bastam.
Fosse talvez necessária a liberdade... Liberta não posso mais me agarrar àquilo que prende as mãos. Algema.
A pena latente no tinteiro a-guarda os dedos que não chegam.
Treme.
Os dedos que seguram o copo... O absinto amar-go faz esquecer o que tem que ser esquecido.
Momento.
Im-preciso.
Os fatos, maduros e embriagados, despencam naquele vazio entre duas linhas até que possam ser enxergados na ressaca, onde tudo é mais incomodo e as epifanias da noite anterior parecem ridículas demais.
Sou ridícula.
Gosto assim. Des-gosto assim.
Mutação diária do sabor que corre a garganta.
Metamorfoseando o que pode ser mudado.
Muda.
Escuto. Os meus próprios passos no corredor. Batem secos, direita, esquerda, direita, esquerda. Tic-tac.
Até deparar-me com a porta. A pedra drummoniana.
Tudo tem que ser aberto! Escancarado! Deixe o minuano entrar... Minuano de histórias bonitas, amores perdidos. Minuano de aventuras malditas, heróis esquecidos.
O instinto leva a mão algemada de encontro à maçaneta. O que tem no peito dispara.
Não se contam mais as vezes que abri essa mesma passagem, conheço, portanto, o que vive do outro lado. Não im-porta, minhas pernas sempre vacilam...
O cheiro do medo é adocicado.
Queria que todo o beijo fosse o primeiro.
Todo abraço fosse, também, o primeiro. Assim como o cheiro quente da praia no verão, o gosto do que depois viraria vício...
Se entregar.
Arrumo meu corpo como se hoje fosse o último dia da minha vida. Se amanhã não houver tempo me dei o presente.
Rasgo a sanidade e as normas de conduta escritas por pessoas que não conheço. Basta de seguir as regras dos outros, é mais fácil burlar as regras em seu próprio jogo.
Dês-preciso daquilo que não seduz, daquilo que não me faz capaz do desejo.
Apaixonar, pelas coisas, para viver. Desiludir para recomeçar.
Se tudo fosse “o primeiro” não haveria a última briga ou a saudade, a vontade e o próprio vício.
Apego minha carne ao que me faz viva. E esta paixão é para o meu próprio desapego.
Não me parece importante.
Muitas coisas são precisas...
E ainda assim reluto em aceitar essa necessidade de ter, de ter que ter.
Não me neguem meu próprio desapego, não discutam comigo o que é trivial. Minhas opiniões me bastam.
Fosse talvez necessária a liberdade... Liberta não posso mais me agarrar àquilo que prende as mãos. Algema.
A pena latente no tinteiro a-guarda os dedos que não chegam.
Treme.
Os dedos que seguram o copo... O absinto amar-go faz esquecer o que tem que ser esquecido.
Momento.
Im-preciso.
Os fatos, maduros e embriagados, despencam naquele vazio entre duas linhas até que possam ser enxergados na ressaca, onde tudo é mais incomodo e as epifanias da noite anterior parecem ridículas demais.
Sou ridícula.
Gosto assim. Des-gosto assim.
Mutação diária do sabor que corre a garganta.
Metamorfoseando o que pode ser mudado.
Muda.
Escuto. Os meus próprios passos no corredor. Batem secos, direita, esquerda, direita, esquerda. Tic-tac.
Até deparar-me com a porta. A pedra drummoniana.
Tudo tem que ser aberto! Escancarado! Deixe o minuano entrar... Minuano de histórias bonitas, amores perdidos. Minuano de aventuras malditas, heróis esquecidos.
O instinto leva a mão algemada de encontro à maçaneta. O que tem no peito dispara.
Não se contam mais as vezes que abri essa mesma passagem, conheço, portanto, o que vive do outro lado. Não im-porta, minhas pernas sempre vacilam...
O cheiro do medo é adocicado.
Queria que todo o beijo fosse o primeiro.
Todo abraço fosse, também, o primeiro. Assim como o cheiro quente da praia no verão, o gosto do que depois viraria vício...
Se entregar.
Arrumo meu corpo como se hoje fosse o último dia da minha vida. Se amanhã não houver tempo me dei o presente.
Rasgo a sanidade e as normas de conduta escritas por pessoas que não conheço. Basta de seguir as regras dos outros, é mais fácil burlar as regras em seu próprio jogo.
Dês-preciso daquilo que não seduz, daquilo que não me faz capaz do desejo.
Apaixonar, pelas coisas, para viver. Desiludir para recomeçar.
Se tudo fosse “o primeiro” não haveria a última briga ou a saudade, a vontade e o próprio vício.
Apego minha carne ao que me faz viva. E esta paixão é para o meu próprio desapego.
Não me parece importante.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Outono
Da-dá
Tinha os pés suspensos no ar, balançavam sozinhos sem que pudesse controlá-los. Os cabelos também teimavam em ficar agitados. Quase estranhava o momento, havia perdido a conta dos anos... Quanto tempo fazia que não aproveitava essa particular simplicidade?
A paisagem fazia parte dos seus dias, mas era justamente isso: paisagem. Os objetos estavam lá, assim como as árvores e as pessoas... Tudo que fazia era olhar. Era como uma pintura gigantesca que mudava um pouco todos os dias.
Estava pendurada em uma parede imaginaria entre duas esquinas. Ficava ali esperando ser admirada pelos trinta segundos que durava a travessia da rua.
Naquele dia, entretanto, a tarde despencava com as folhas estatelando-se de forma descuidada no chão e a pintura estava estranhamente deserta. Era o fundo maravilhosamente delineado.
Sentiu-se inexplicavelmente atraída por ele.
Era algo tão sedutor e ainda assim... Isento de pensamentos. Descomplicado. Momento degustável.
Quando deu-se consigo estava com os pés suspensos e o cabelo afoito chicoteando o ar. Sentada no gira-gira a toda velocidade. Aquele brinquedo, colorido demais e de nome óbvio, a fez em-beber os pulmões em nostalgia.
A tontura parecia infiltrar seu corpo a levando a um êxtase morno.
Memorável momento. O mundo fica dentro de nós e todo o resto é feito de plástico, deixando a marca: descartável.
Reciclar.
Que foi de tanto dar voltas que entrou no espírito de pensar em tudo que parecida estar permanentemente fora do lugar.
Desalinhava-se, alinhavava o in-costurável e sobre tudo ex-custuraria o que deveria se jogado fora.
A paixão platônica e inexplicável. O desejo insaciável que só é assassinado se provado. Os momentos que provados viram vício. A vontade de viver que parecida tantas vezes tão desconfortável.
E ainda assim a morte era para ela menos que um pequeno incomodo.
Tudo funciona de forma urobórica. O que é cruel e confortador, irritante e maravilhoso.
O que ontem era prazer amanhã é desgosto. Se não amanhã... Talvez depois de amanhã.
Que se sua morte era algo que lhe parecia relevante, o perturbante eram as mortes em vida. Temos todos: o início, a partida, o retorno louvado e a morte.
A cobra finca as presas salivantes no próprio rabo.
E somos heróis desenganados.
De virtudes que amadureceram demais e despencaram podres no chão.
Seus olhos acompanhavam as cores da pintura que se misturavam e davam adeus aos contornos banais que as aprisionavam. Quem sabe tudo poderia a(s)cender virando luz.
Não importava.
Lembrar do corpo desejoso da vontade que tinha de tocar aquela pele. Aquilo que a atraia e traia. Que era ressaca neste e no outro dia.
Consumia-se diariamente, revirava o lixo para achar algo mais que pudesse ser aproveitado. Tudo que cria é fantasia. Sente o gosto putrefato como romã colhida naquele dia.
O chocalho da cascavel era alto demais para ser ignorado. A víbora sempre da o bote. E tudo que ela sabia fazer era se deixar girar e mirar os pés chacoalhantes.
Já havia sentido aquele golpe. Dês-superlativando os fatos. Conhecia a queda querida.
Forçou a sola dos sapatos velhos, desamarrados e pueris contra o chão. O mundo dava voltas e ela sabia, estava parada no mesmo lugar.
O enjôo veio com a solitária que tentava vomitar.
O estômago contraiu.
De novo. E mais uma vez ainda.
Refluxo ácido empestiando a boca.
Mas nada do que não tinha foi posto para fora.
Bastou o saudosismo da fantasia que escorria dourada.
Levantou. Passos de boneca gigante.
O pior de tudo aquilo é que então não havia mais sobre o que pensar.
Foi até a calçada deixou a pintura para trás para que mais uma vez se torna-se paisagem.
Tinha os pés suspensos no ar, balançavam sozinhos sem que pudesse controlá-los. Os cabelos também teimavam em ficar agitados. Quase estranhava o momento, havia perdido a conta dos anos... Quanto tempo fazia que não aproveitava essa particular simplicidade?
A paisagem fazia parte dos seus dias, mas era justamente isso: paisagem. Os objetos estavam lá, assim como as árvores e as pessoas... Tudo que fazia era olhar. Era como uma pintura gigantesca que mudava um pouco todos os dias.
Estava pendurada em uma parede imaginaria entre duas esquinas. Ficava ali esperando ser admirada pelos trinta segundos que durava a travessia da rua.
Naquele dia, entretanto, a tarde despencava com as folhas estatelando-se de forma descuidada no chão e a pintura estava estranhamente deserta. Era o fundo maravilhosamente delineado.
Sentiu-se inexplicavelmente atraída por ele.
Era algo tão sedutor e ainda assim... Isento de pensamentos. Descomplicado. Momento degustável.
Quando deu-se consigo estava com os pés suspensos e o cabelo afoito chicoteando o ar. Sentada no gira-gira a toda velocidade. Aquele brinquedo, colorido demais e de nome óbvio, a fez em-beber os pulmões em nostalgia.
A tontura parecia infiltrar seu corpo a levando a um êxtase morno.
Memorável momento. O mundo fica dentro de nós e todo o resto é feito de plástico, deixando a marca: descartável.
Reciclar.
Que foi de tanto dar voltas que entrou no espírito de pensar em tudo que parecida estar permanentemente fora do lugar.
Desalinhava-se, alinhavava o in-costurável e sobre tudo ex-custuraria o que deveria se jogado fora.
A paixão platônica e inexplicável. O desejo insaciável que só é assassinado se provado. Os momentos que provados viram vício. A vontade de viver que parecida tantas vezes tão desconfortável.
E ainda assim a morte era para ela menos que um pequeno incomodo.
Tudo funciona de forma urobórica. O que é cruel e confortador, irritante e maravilhoso.
O que ontem era prazer amanhã é desgosto. Se não amanhã... Talvez depois de amanhã.
Que se sua morte era algo que lhe parecia relevante, o perturbante eram as mortes em vida. Temos todos: o início, a partida, o retorno louvado e a morte.
A cobra finca as presas salivantes no próprio rabo.
E somos heróis desenganados.
De virtudes que amadureceram demais e despencaram podres no chão.
Seus olhos acompanhavam as cores da pintura que se misturavam e davam adeus aos contornos banais que as aprisionavam. Quem sabe tudo poderia a(s)cender virando luz.
Não importava.
Lembrar do corpo desejoso da vontade que tinha de tocar aquela pele. Aquilo que a atraia e traia. Que era ressaca neste e no outro dia.
Consumia-se diariamente, revirava o lixo para achar algo mais que pudesse ser aproveitado. Tudo que cria é fantasia. Sente o gosto putrefato como romã colhida naquele dia.
O chocalho da cascavel era alto demais para ser ignorado. A víbora sempre da o bote. E tudo que ela sabia fazer era se deixar girar e mirar os pés chacoalhantes.
Já havia sentido aquele golpe. Dês-superlativando os fatos. Conhecia a queda querida.
Forçou a sola dos sapatos velhos, desamarrados e pueris contra o chão. O mundo dava voltas e ela sabia, estava parada no mesmo lugar.
O enjôo veio com a solitária que tentava vomitar.
O estômago contraiu.
De novo. E mais uma vez ainda.
Refluxo ácido empestiando a boca.
Mas nada do que não tinha foi posto para fora.
Bastou o saudosismo da fantasia que escorria dourada.
Levantou. Passos de boneca gigante.
O pior de tudo aquilo é que então não havia mais sobre o que pensar.
Foi até a calçada deixou a pintura para trás para que mais uma vez se torna-se paisagem.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Epifania tomando nescau na frente da TV ... (cafona que foi 31 de dez... )
Bananas
O problema das coisas é que se tornaram banais.
Foram despetalando sua importância e sozinhas embeberam-se em tons pastéis. Não gosto, contudo, de discutir com as coisas, seja porque não me respondem, seja porque quando o fazem são sem-sentidistas.
Cansei de papagaiar com elas.
O duelo mental estagnou-se.
A importância frágil tomou um sorvo longo de banalização e perambula em algum lugar de minhas idéias.
Se passo as mãos pelo corpo sinto-o corpo como é.
Sinto-o carne como sempre foi. E perdôo-me de pensar sobre máculas ou poesias alvaresianas. A definição bastou-se.
Foi de olhos abertos que vi e com os mesmos, fechados, que deixei de refletir.
No escuro entre a imagem e fantasia não há como ver se não a brasa morna que encandece com o trago amargo. A fumaça branca dissipa-se como se bailasse, bailarina, como se algo de elegante ali houvesse, como se eu pudesse ver o belo ali por um instante vago que fosse.
O instante já é morto.
Vai-se a fumaça branca do cigarro branco seguro nos dedos esbranquiçados.
Olho acalentando meus sentidos. Provando da sinestesia que escorre pelos cantos de meu corpo.
Retornando à banalidade das coisas.
Se há, pois, o nojo ele enterrou-se e a lápide ficou vazia o funeral desocupado. O cheiro do cigarro naquele corpo perturbante...
O cheiro.
O gosto.
O corpo.
Já não soa repudio, é nota desafinada do acorde daquela sinfonia. Semi-breve.
Possuo então. Possuo porque posso e é simples. O pudor sabe se consumir. Minhas mãos vão ao encontro e depois meus pés vão embora. Como se só os corpos pudessem fazer os momentos e só a banalização pudesse fazer ir-se embora.
Meu corpo é corpo como é, feito de carne como sempre foi e quando está vivo já não sabe mais se vive de maneira augustiana, talvez os anjos tenham voado ou decaído.
Que minha completude é êxtase. Momento. Que meu vazio é eternidade. Pensamento.
Que entre o horror e o encanto, entre o amargor e o gozo, entre a verdade e a felicidade sempre existi. Estavam todos em persona ali aos berros nos meus ouvidos. Palavreavam gritos. Minhas partes se punham a escutar.
Escutavam.
É estrada. É rio. É seco. É caudaloso. Importa que têm curvas e o problema é que em algum momento as coisas se tornaram banais.
O problema das coisas é que se tornaram banais.
Foram despetalando sua importância e sozinhas embeberam-se em tons pastéis. Não gosto, contudo, de discutir com as coisas, seja porque não me respondem, seja porque quando o fazem são sem-sentidistas.
Cansei de papagaiar com elas.
O duelo mental estagnou-se.
A importância frágil tomou um sorvo longo de banalização e perambula em algum lugar de minhas idéias.
Se passo as mãos pelo corpo sinto-o corpo como é.
Sinto-o carne como sempre foi. E perdôo-me de pensar sobre máculas ou poesias alvaresianas. A definição bastou-se.
Foi de olhos abertos que vi e com os mesmos, fechados, que deixei de refletir.
No escuro entre a imagem e fantasia não há como ver se não a brasa morna que encandece com o trago amargo. A fumaça branca dissipa-se como se bailasse, bailarina, como se algo de elegante ali houvesse, como se eu pudesse ver o belo ali por um instante vago que fosse.
O instante já é morto.
Vai-se a fumaça branca do cigarro branco seguro nos dedos esbranquiçados.
Olho acalentando meus sentidos. Provando da sinestesia que escorre pelos cantos de meu corpo.
Retornando à banalidade das coisas.
Se há, pois, o nojo ele enterrou-se e a lápide ficou vazia o funeral desocupado. O cheiro do cigarro naquele corpo perturbante...
O cheiro.
O gosto.
O corpo.
Já não soa repudio, é nota desafinada do acorde daquela sinfonia. Semi-breve.
Possuo então. Possuo porque posso e é simples. O pudor sabe se consumir. Minhas mãos vão ao encontro e depois meus pés vão embora. Como se só os corpos pudessem fazer os momentos e só a banalização pudesse fazer ir-se embora.
Meu corpo é corpo como é, feito de carne como sempre foi e quando está vivo já não sabe mais se vive de maneira augustiana, talvez os anjos tenham voado ou decaído.
Que minha completude é êxtase. Momento. Que meu vazio é eternidade. Pensamento.
Que entre o horror e o encanto, entre o amargor e o gozo, entre a verdade e a felicidade sempre existi. Estavam todos em persona ali aos berros nos meus ouvidos. Palavreavam gritos. Minhas partes se punham a escutar.
Escutavam.
É estrada. É rio. É seco. É caudaloso. Importa que têm curvas e o problema é que em algum momento as coisas se tornaram banais.
Re postando -- Calibre 39
Calibre 39
As janelas estavam todas abertas, as portas escancaradas, porque o temporal se aproximava e assim a chuva poderia entrar e molhar os móveis. Ele estava ali no meio da sala, sentado observado a meia garrafa de vodka, sentia-se tão feliz quando a manchete do jornal do dia anterior.
Não queria mais mentir, fingir velhas terceiras intenções que haviam morrido dentro de algo que pareceu vivo um dia. O amor era um capricho de seu ego. Era tudo mentira. Mas o mantinha vivo para sentir algo dentro de seu peito, e talvez quando acabasse, ou agora que tudo parecia terminado, pelo menos dentro daquela garrafa, tudo parecia tão vago.
Não chegava nem mesmo a ser um sonho bom, eram segredos sussurrados e vividos por viver, sofridos pela necessidade de se ter algo, pelo gosto e prazer palatável daquela insônia soberba.
Desejou que seus joelhos não doessem mais e isso bastou para que sorrisse, os lábios grossos estavam rachados pelo tempo, pelo inverno que havia passado e ele havia esquecido mais uma vez de passar o protetor, isso só deveria ser preciso no verão...
O cheiro de álcool era perfume de rosas impuras e antigas que agora diante de seus olhos tinham qualquer beleza visceral, queria matar, matar as flores, matar tudo aquilo que havia vivido, matar a sede entranhada na garganta. Passou a mão na garrafa e despejou seu conteúdo já plácido e sem gosto dentro da boca.
Queria matar a sede, mas ficou mais sedento. Afrouxou os dedos e deixou que o vidro caísse em um baque surdo e rolasse pela madeira escura do chão. Estava só, percebeu que tudo que havia feito durante a vida fora evitar a dor, então foi submerso pelo entorpecimento abençoado do tédio.
As árvores que plantara no jardim e todos os frutos de sua vida agora levemente apodrecidos riam dele. Transformaria todo aquele tédio em música, e cantaria, cantaria para espantar os próprios demônios internos inexistentes.
A vida era breve, curta demais, mas todos em algum momento já desejaram desesperadamente sair, ou sumir, levar-se dali ou serem levados. A vida era imensa, pecaminosa e agradável por ser assim. Talvez aquele fosse seu momento.
Teria que arrancar suas raízes, tirar os grilhões, sair da caverna, chegar ao jardim e rir das arvores que riam dele. Seus lábios grossos descosturados estalariam e seria como não soube ser. Descontrole agridoce levemente ácido de uma manhã sem ressaca.
Levantou-se. Com certa dificuldade, pois não estava acostumado a andar sem ter um destino, seus olhos habituados com os dias de permanente penumbra introspectiva espantaram-se com a claridade vinda do jardim, os ouvidos agraciaram-se com o riso e o olfato com o cheiro de álcool vindo das rosas.
O álcool olhou para a garrafa que no chão olhou-o de volta. Estavam ali. O seu amor pela metade engarrafado, sua vida em um bafo senil de um ébrio que não se reconheceria no espelho no dia seguinte.
Refletiu sobre seus próprios pés nada calejados e pegou o artefato precioso do chão acariciando-o como faria com um filho, primogênito que jamais tivera. O líquido contido ali era transparente, de uma translucidez pura, triplamente destilado, alimento da surrealidade e combustível da falta de insanidade.
A pureza de seu corpo, a impureza de seus atos, a pecaminosidade na sua falta de viver tudo estava diante de seus olhos, e fora vendido em um supermercado qualquer. As respostas as suas faltas de dúvidas compradas em uma prateleira velha e pagas com um uma nota de 20. Foi uma epifania barata, vulgar e levemente prostituída.
Quem sabe ainda se fosse um champagne, ou um vinho caro? Teria sido mais nobre. Ou se estive a beira da morte, ou ainda visto um milagre, ou ter sido perdoado.
Não, as havia encontrado na metade de uma garrafa de vodka. Sorriu. E seu sorriso abafou temporariamente o escândalo que vinha do jardim e a luz que vinha do sol incomodar seus olhos fracassados.
Nada havia saído do lugar ou estava mais ou menos verde do que ontem. Apenas haviam passado pela translucidez daquela vulgaridade. Foi até a cama onde a mulher dormia sem poder jamais entrar naqueles pensamentos esclarecedores.
Olhou os lençóis brancos e sentiu prazer por eles, como se pela primeira vez tivesse percebido que eles eram acetinados. Deitou-se, as portas ainda estavam abertas, a chuva ainda chegaria a qualquer momento, mesmo assim, deitou-se e junto ao seu peito ficou a garrafa, ao lado da cama a arma do crime.
As janelas estavam todas abertas, as portas escancaradas, porque o temporal se aproximava e assim a chuva poderia entrar e molhar os móveis. Ele estava ali no meio da sala, sentado observado a meia garrafa de vodka, sentia-se tão feliz quando a manchete do jornal do dia anterior.
Não queria mais mentir, fingir velhas terceiras intenções que haviam morrido dentro de algo que pareceu vivo um dia. O amor era um capricho de seu ego. Era tudo mentira. Mas o mantinha vivo para sentir algo dentro de seu peito, e talvez quando acabasse, ou agora que tudo parecia terminado, pelo menos dentro daquela garrafa, tudo parecia tão vago.
Não chegava nem mesmo a ser um sonho bom, eram segredos sussurrados e vividos por viver, sofridos pela necessidade de se ter algo, pelo gosto e prazer palatável daquela insônia soberba.
Desejou que seus joelhos não doessem mais e isso bastou para que sorrisse, os lábios grossos estavam rachados pelo tempo, pelo inverno que havia passado e ele havia esquecido mais uma vez de passar o protetor, isso só deveria ser preciso no verão...
O cheiro de álcool era perfume de rosas impuras e antigas que agora diante de seus olhos tinham qualquer beleza visceral, queria matar, matar as flores, matar tudo aquilo que havia vivido, matar a sede entranhada na garganta. Passou a mão na garrafa e despejou seu conteúdo já plácido e sem gosto dentro da boca.
Queria matar a sede, mas ficou mais sedento. Afrouxou os dedos e deixou que o vidro caísse em um baque surdo e rolasse pela madeira escura do chão. Estava só, percebeu que tudo que havia feito durante a vida fora evitar a dor, então foi submerso pelo entorpecimento abençoado do tédio.
As árvores que plantara no jardim e todos os frutos de sua vida agora levemente apodrecidos riam dele. Transformaria todo aquele tédio em música, e cantaria, cantaria para espantar os próprios demônios internos inexistentes.
A vida era breve, curta demais, mas todos em algum momento já desejaram desesperadamente sair, ou sumir, levar-se dali ou serem levados. A vida era imensa, pecaminosa e agradável por ser assim. Talvez aquele fosse seu momento.
Teria que arrancar suas raízes, tirar os grilhões, sair da caverna, chegar ao jardim e rir das arvores que riam dele. Seus lábios grossos descosturados estalariam e seria como não soube ser. Descontrole agridoce levemente ácido de uma manhã sem ressaca.
Levantou-se. Com certa dificuldade, pois não estava acostumado a andar sem ter um destino, seus olhos habituados com os dias de permanente penumbra introspectiva espantaram-se com a claridade vinda do jardim, os ouvidos agraciaram-se com o riso e o olfato com o cheiro de álcool vindo das rosas.
O álcool olhou para a garrafa que no chão olhou-o de volta. Estavam ali. O seu amor pela metade engarrafado, sua vida em um bafo senil de um ébrio que não se reconheceria no espelho no dia seguinte.
Refletiu sobre seus próprios pés nada calejados e pegou o artefato precioso do chão acariciando-o como faria com um filho, primogênito que jamais tivera. O líquido contido ali era transparente, de uma translucidez pura, triplamente destilado, alimento da surrealidade e combustível da falta de insanidade.
A pureza de seu corpo, a impureza de seus atos, a pecaminosidade na sua falta de viver tudo estava diante de seus olhos, e fora vendido em um supermercado qualquer. As respostas as suas faltas de dúvidas compradas em uma prateleira velha e pagas com um uma nota de 20. Foi uma epifania barata, vulgar e levemente prostituída.
Quem sabe ainda se fosse um champagne, ou um vinho caro? Teria sido mais nobre. Ou se estive a beira da morte, ou ainda visto um milagre, ou ter sido perdoado.
Não, as havia encontrado na metade de uma garrafa de vodka. Sorriu. E seu sorriso abafou temporariamente o escândalo que vinha do jardim e a luz que vinha do sol incomodar seus olhos fracassados.
Nada havia saído do lugar ou estava mais ou menos verde do que ontem. Apenas haviam passado pela translucidez daquela vulgaridade. Foi até a cama onde a mulher dormia sem poder jamais entrar naqueles pensamentos esclarecedores.
Olhou os lençóis brancos e sentiu prazer por eles, como se pela primeira vez tivesse percebido que eles eram acetinados. Deitou-se, as portas ainda estavam abertas, a chuva ainda chegaria a qualquer momento, mesmo assim, deitou-se e junto ao seu peito ficou a garrafa, ao lado da cama a arma do crime.
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