segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Re postando -- Calibre 39

Calibre 39


As janelas estavam todas abertas, as portas escancaradas, porque o temporal se aproximava e assim a chuva poderia entrar e molhar os móveis. Ele estava ali no meio da sala, sentado observado a meia garrafa de vodka, sentia-se tão feliz quando a manchete do jornal do dia anterior.
Não queria mais mentir, fingir velhas terceiras intenções que haviam morrido dentro de algo que pareceu vivo um dia. O amor era um capricho de seu ego. Era tudo mentira. Mas o mantinha vivo para sentir algo dentro de seu peito, e talvez quando acabasse, ou agora que tudo parecia terminado, pelo menos dentro daquela garrafa, tudo parecia tão vago.
Não chegava nem mesmo a ser um sonho bom, eram segredos sussurrados e vividos por viver, sofridos pela necessidade de se ter algo, pelo gosto e prazer palatável daquela insônia soberba.
Desejou que seus joelhos não doessem mais e isso bastou para que sorrisse, os lábios grossos estavam rachados pelo tempo, pelo inverno que havia passado e ele havia esquecido mais uma vez de passar o protetor, isso só deveria ser preciso no verão...
O cheiro de álcool era perfume de rosas impuras e antigas que agora diante de seus olhos tinham qualquer beleza visceral, queria matar, matar as flores, matar tudo aquilo que havia vivido, matar a sede entranhada na garganta. Passou a mão na garrafa e despejou seu conteúdo já plácido e sem gosto dentro da boca.
Queria matar a sede, mas ficou mais sedento. Afrouxou os dedos e deixou que o vidro caísse em um baque surdo e rolasse pela madeira escura do chão. Estava só, percebeu que tudo que havia feito durante a vida fora evitar a dor, então foi submerso pelo entorpecimento abençoado do tédio.
As árvores que plantara no jardim e todos os frutos de sua vida agora levemente apodrecidos riam dele. Transformaria todo aquele tédio em música, e cantaria, cantaria para espantar os próprios demônios internos inexistentes.
A vida era breve, curta demais, mas todos em algum momento já desejaram desesperadamente sair, ou sumir, levar-se dali ou serem levados. A vida era imensa, pecaminosa e agradável por ser assim. Talvez aquele fosse seu momento.
Teria que arrancar suas raízes, tirar os grilhões, sair da caverna, chegar ao jardim e rir das arvores que riam dele. Seus lábios grossos descosturados estalariam e seria como não soube ser. Descontrole agridoce levemente ácido de uma manhã sem ressaca.
Levantou-se. Com certa dificuldade, pois não estava acostumado a andar sem ter um destino, seus olhos habituados com os dias de permanente penumbra introspectiva espantaram-se com a claridade vinda do jardim, os ouvidos agraciaram-se com o riso e o olfato com o cheiro de álcool vindo das rosas.
O álcool olhou para a garrafa que no chão olhou-o de volta. Estavam ali. O seu amor pela metade engarrafado, sua vida em um bafo senil de um ébrio que não se reconheceria no espelho no dia seguinte.
Refletiu sobre seus próprios pés nada calejados e pegou o artefato precioso do chão acariciando-o como faria com um filho, primogênito que jamais tivera. O líquido contido ali era transparente, de uma translucidez pura, triplamente destilado, alimento da surrealidade e combustível da falta de insanidade.
A pureza de seu corpo, a impureza de seus atos, a pecaminosidade na sua falta de viver tudo estava diante de seus olhos, e fora vendido em um supermercado qualquer. As respostas as suas faltas de dúvidas compradas em uma prateleira velha e pagas com um uma nota de 20. Foi uma epifania barata, vulgar e levemente prostituída.
Quem sabe ainda se fosse um champagne, ou um vinho caro? Teria sido mais nobre. Ou se estive a beira da morte, ou ainda visto um milagre, ou ter sido perdoado.
Não, as havia encontrado na metade de uma garrafa de vodka. Sorriu. E seu sorriso abafou temporariamente o escândalo que vinha do jardim e a luz que vinha do sol incomodar seus olhos fracassados.
Nada havia saído do lugar ou estava mais ou menos verde do que ontem. Apenas haviam passado pela translucidez daquela vulgaridade. Foi até a cama onde a mulher dormia sem poder jamais entrar naqueles pensamentos esclarecedores.
Olhou os lençóis brancos e sentiu prazer por eles, como se pela primeira vez tivesse percebido que eles eram acetinados. Deitou-se, as portas ainda estavam abertas, a chuva ainda chegaria a qualquer momento, mesmo assim, deitou-se e junto ao seu peito ficou a garrafa, ao lado da cama a arma do crime.

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