Da-dá
Tinha os pés suspensos no ar, balançavam sozinhos sem que pudesse controlá-los. Os cabelos também teimavam em ficar agitados. Quase estranhava o momento, havia perdido a conta dos anos... Quanto tempo fazia que não aproveitava essa particular simplicidade?
A paisagem fazia parte dos seus dias, mas era justamente isso: paisagem. Os objetos estavam lá, assim como as árvores e as pessoas... Tudo que fazia era olhar. Era como uma pintura gigantesca que mudava um pouco todos os dias.
Estava pendurada em uma parede imaginaria entre duas esquinas. Ficava ali esperando ser admirada pelos trinta segundos que durava a travessia da rua.
Naquele dia, entretanto, a tarde despencava com as folhas estatelando-se de forma descuidada no chão e a pintura estava estranhamente deserta. Era o fundo maravilhosamente delineado.
Sentiu-se inexplicavelmente atraída por ele.
Era algo tão sedutor e ainda assim... Isento de pensamentos. Descomplicado. Momento degustável.
Quando deu-se consigo estava com os pés suspensos e o cabelo afoito chicoteando o ar. Sentada no gira-gira a toda velocidade. Aquele brinquedo, colorido demais e de nome óbvio, a fez em-beber os pulmões em nostalgia.
A tontura parecia infiltrar seu corpo a levando a um êxtase morno.
Memorável momento. O mundo fica dentro de nós e todo o resto é feito de plástico, deixando a marca: descartável.
Reciclar.
Que foi de tanto dar voltas que entrou no espírito de pensar em tudo que parecida estar permanentemente fora do lugar.
Desalinhava-se, alinhavava o in-costurável e sobre tudo ex-custuraria o que deveria se jogado fora.
A paixão platônica e inexplicável. O desejo insaciável que só é assassinado se provado. Os momentos que provados viram vício. A vontade de viver que parecida tantas vezes tão desconfortável.
E ainda assim a morte era para ela menos que um pequeno incomodo.
Tudo funciona de forma urobórica. O que é cruel e confortador, irritante e maravilhoso.
O que ontem era prazer amanhã é desgosto. Se não amanhã... Talvez depois de amanhã.
Que se sua morte era algo que lhe parecia relevante, o perturbante eram as mortes em vida. Temos todos: o início, a partida, o retorno louvado e a morte.
A cobra finca as presas salivantes no próprio rabo.
E somos heróis desenganados.
De virtudes que amadureceram demais e despencaram podres no chão.
Seus olhos acompanhavam as cores da pintura que se misturavam e davam adeus aos contornos banais que as aprisionavam. Quem sabe tudo poderia a(s)cender virando luz.
Não importava.
Lembrar do corpo desejoso da vontade que tinha de tocar aquela pele. Aquilo que a atraia e traia. Que era ressaca neste e no outro dia.
Consumia-se diariamente, revirava o lixo para achar algo mais que pudesse ser aproveitado. Tudo que cria é fantasia. Sente o gosto putrefato como romã colhida naquele dia.
O chocalho da cascavel era alto demais para ser ignorado. A víbora sempre da o bote. E tudo que ela sabia fazer era se deixar girar e mirar os pés chacoalhantes.
Já havia sentido aquele golpe. Dês-superlativando os fatos. Conhecia a queda querida.
Forçou a sola dos sapatos velhos, desamarrados e pueris contra o chão. O mundo dava voltas e ela sabia, estava parada no mesmo lugar.
O enjôo veio com a solitária que tentava vomitar.
O estômago contraiu.
De novo. E mais uma vez ainda.
Refluxo ácido empestiando a boca.
Mas nada do que não tinha foi posto para fora.
Bastou o saudosismo da fantasia que escorria dourada.
Levantou. Passos de boneca gigante.
O pior de tudo aquilo é que então não havia mais sobre o que pensar.
Foi até a calçada deixou a pintura para trás para que mais uma vez se torna-se paisagem.
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Um comentário:
sempre ha algo em sobre o que pensar
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