domingo, 29 de abril de 2007
Repente Noturno
Caneta mordida pende entre os dedos riscando o papel amar-elado pela luz, a sombra da mão escurece as palavras.
Penso. Já é hábito e não consigo me livrar dele. Nem tento.
Velho habito que persegue abatinado de preto, imagem minha que me olha de dentro do espelho. Ilusão.
Existe? Doença dos meus olhos ex-au-s-tados?
Se sou sã tenho orgulho da loucura estabelecida entre as linhas, se não meto a mão na luva listrada e saio rápido daqui.
Saudosismo. Do eu te amo falso acompanhado dos olhos enjoados e do sorriso pregado.
Olhos de adoçante. Sorriso de zinco.
A tinta do rosto rachou sozinha, mesmo havendo as cuspidelas colantes, desfaleceu.
Cacos de plástico ti-lin-tan-do pelo chão.
Era estabilidade, agora perdida. Liberdade ad-querida que não sabe ser.
Procura a parede para se apoiar, mas ela nunca existiu.
Já houve uma menininha encostada no muro, os dois lados brigaram, um deles perdeu, o muro caiu.
Vá com dedos leves no escuro que me encontrará lá.
Deitada na cama contando historinhas para mim mesma naquele segundo antes de dormir. Procurando me livrar da rotina o que em si já virou... Rotina.
Lençol sobre a cabeça. Penso. Pinga. Penso. Pinga, a irritante torneira que não fecha, irritante cabeça pensa iludindo os olhos de meias-verdades pendidas entre a menininha e a falta de muro.
Cismo, é o que resta. Amanhã é sexta... Acabou a festa.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Fábula: A mosca e o Professor
todos aqueles números sem sentido gritavam desesperados na lousa
Eu olhava
Uma mosca também...
Voou de encontro a morte dentro do olho do professor
Se ela for kamikase é heroína
Se for mulçumana é terrorista
domingo, 22 de abril de 2007
o ato de des-me-ninização
Mocinha!
Já é uma mulherzinha!
Já não pensa mais para fazer as coisas.
Não porque seja impulsiva... Ah não
Porque isso passou
Passou com a primavera que se foi
Quase a encontra às vezes...
Mas vive no outono amarelado
Em um outubro qualquer
Chega de bananada
De palhaçada
De noites claras
Toma banho olhando para os azulejos rachados
Com aquele leve trincado na ponta
Que quase, quase a incomoda
Mas não o suficiente para mandar trocá-lo
Convenceu-se que ele da personalidade ao lugar
Fecha o chuveiro e depois mal percebe
Que o banho passou
Não vê mais nada passar
Torce o registro e a água para de cair
Faz.
Faça
Que não a nada de errado com isso.
Há?
Não há!
Há!
Não há!
Perdeu também o costume de questionar-se
Perda de tempo?
Esquecimento
Junta as mesmas palavras
Todos os dias
Bom dia!
Passar bem!
E qualquer diálogo de elevador que consiga lembrar
Nossa! Como anda fazendo frio!
Não agüento mais esse calor dos infernos
Insuficiência diária.
Sempre algo de errado.
Importa?
Não importa
Importa
Não importa
Talvez exporte
Ou esporte.
Aquelas pessoas que vê pelas manhãs
Do sorriso amarelado quase simpático
De nomes desconhecidos
O desejo trai
Então dês-desejou as coisas
Mantendo-se fiel a si
Veste-se de branco às segundas feiras
Preconceitos à parte, pois nunca entendeu
O que havia de errado com essa frase
Tirou a meninice da tomada
Embalou e deixou esquecida no freezer
Entre a carne velha e esquecida
E a lasanha para microondas
O muro caiu
Nem divisão existe mais
Agora há ela com ela
Ela sem ela
Não podendo mais viver consigo
Nem sem-sigo
Segue
Na quase vida que é comum a todos
Passos de boneca crescida
Livro empoeirado na estante
Poema sem métrica ou rima
Rosa-rosa desaperfumada
Dês-apercebe
..Segue
.....Segue
.........Segue
Ah! A menina cresceu
sábado, 21 de abril de 2007
Adeus Andrade
Diz! Para saber se vou ou não contigo
Se corro se choro ou se grito
Ou se me atiro no mar
.............O mar já secou
Anda José! Desembucha!
Que as horas me amar-gam angustias
O tempo é findo para arrumar as malas
O braço esticado reclama do longo a-deus
A valsa vienense da vitrola já cansou
..............O disco riscou
Vai José! Vai pra onde voltará?
Me diz! Pois se muito longe fico
Arranjo a vida remendando
O ponto no pano antigo
E se vierem fios brancos...
.............. O espelho estilhaçou
E então José! Onde meteu as passagens?
Nelas o teu destino e a decisão do meu
Monto contos de fada e castelos no ar
Ou azedo histórias de amor no bar
Basta das amar-ras! Desem-besta homem!
............A corrente quebrou
José partiu.
Numa sem graça manhã de terça
Nem sol nem frio
Eu sabia que, em algum lugar, chovia
Em cima da mesa jazia bilhete de despedida
.................... Em branco.... A tinta acabou.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Uivo
Os lábios rosados assoviavam de forma morta e incomoda. Barulho continuo sem sentido interrompido apenas pela língua despótica que seca encontrava os dentes e bloqueava a saída do ar.
Deitada.
Mãos entrelaçadas unidas entre as pernas, reza espremida por aquelas coxas brancas. Estava entre o entorpecimento e a viva pulsação. O peito ronronava tuberculoso dando as notas mudas do último tango argentino.
A cena, no entanto, não apresentava nem uma gota melancólica.
Apenas exalava exaustão.
A luz do quarto estava alaranjada como todos os dias, os olhos enegrecidos se ergueram, os insetos iam de encontro a lâmpada quente.
Era verão.
Rodeavam na sua missão sem nexo, procuravam algo que, talvez, jamais poderão entender. Contudo algo naqueles baquezinhos surdos lhe trouxe alguma felicidade.
Simples. Objetivo de vida (quase) trivial.
Dura até que suas asas caiam, então não poderão mais voar.
Ficavam aprisionados naquelas forma quanto tempo? Talvez penas vinte e quatro horas.
Existe nisso tempo suficiente para sentir algo?
Meros escravos de suas funções biológicas, nascer, comer, reproduzir, bater contra a lâmpada e morrer...
Qual fora a última vez que bateu contra a algo inútil?
Incandescência.
Era agora covarde.
Passos e planos grandiosos eram hoje apenas sombras. Covarde.
Não olhava as próprias rugas no espelho. Faltava coragem. Não conseguia admitir que um dia berrou planos de mudar o mundo, aquela garota que ia mudar o mundo, a garota de cabelos vermelhos intensos, de lábios pintados, de grito estridente simplesmente mudou, havia simplesmente desbotado...
E não sabia no bolso de qual paletó havia se esquecido. O restante fraco que sobrou bebia nas noites de sexta-feira e escrevia deus com letra minúscula.
Rebeldia.
Rebeldia?
Piedade deus, por ser tão covarde. Tinha se traído. A rotina era maravilhosamente cruel com ela. O desconhecimento súbito da vida lhe assustou confortavelmente.
Poeta, amante, amada, atriz, chorou, sofreu, riu, cruel, tripudiou, pisou, caiu levantou, sentiu o doce gelado do sorvete esquisito, destilou todas as bebidas do mundo.
Agradeceu aos homens por terem ido embora e também ao mundo por ter girado e não tê-la deixado parar jamais. A morte que a olhava nos olhos avermelhados agora e a achava tão viva... Obrigada.
Impregnada de sonhos custeados e vendidos. Barato,
Tudo tem um preço, barato demais foi o dela.
Cansou-se de correr na direção contraria, parou de rolar os dados, desistiu do jogo.
O corpo pulsava, definitivamente, pulsava. Em um compasso emudecido daquela sinfonia inexistente.
Procurava respostas sem perguntas. Nada parecia brilhante ou digno de louvor, mas aquilo de alguma forma curiosa lhe bastava, caprichosamente, bastava.
Nas mãos tão brancas esmagavam rosas roubadas igualmente brancas e delas gotejava um liquido vermelho espesso. Roubo. Esmaga sem a delicadeza que não lhe é peculiar. Não foi amor, nem ódio, nem rancor, eram as malditas engrenagens batendo seu coração.
Maquinal.
Estava agora tão pulsante que o corpo teimava em tomar vida. Sentia as contrações uterinas daquele ventre seco e sem vida. Sentia as dores do parto e a (dês) alegria de jamais ter dado a vida.
Era ela própria continuação e fim de nada. Os olhos pregados naquela lâmpada, naqueles insetos pegajosos que insistiam em colidir com tudo aquilo que parecia sistemático.
Se pudesse sentir raiva ou paixão naquela cena talvez se movesse. I-móvel. O torpor diário, indolência já tão obsessiva.
Batidas.
Compulsão.
De novo e mais uma vez.
Seus olhos semi-cerrados não podiam compreender.
Seus olhos negros injetados não queriam voltar a ver.
Pul-sa-ção. A carne toda contra o peso daquela falta de indignação, contra o luxo e os tons alaranjados do quarto.
Chegada a hora de vencer a bonança. Pedaços apodrecidos sozinhos se reergueram. As mãos esticaram ao lado do corpo saindo daquela posição de reza herege e profana.
Um dos braços esticou em direção a lâmpada, queria queimar a ponta dos dedos, pegar todos os insetos e comê-los. Um a um. Seus ossos poderiam ser curtos demais, sua pele pouco elástica e sua condição... Humana demais. Não importava.
Os dedos.
A lâmpada.
Os olhos injetados.
Estica.
Daquela flacidez mórbida um sorriso (in)contido (in)comum.
A luz queimou.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
É curto por faltar algo no que sobra
Momento espasmado entre o gosto e o sono. Quase acometida pela re-sonância lembro do beijo desajeitado, das mãos desorientadas mantidas fixas, ora olhavam o chão ora, entre receios, tocavam minhas costas.
Brota, então, de mim um sorriso enterrado podendo-se ler em sua violada lápide qualquer blá-blá-blá de inocência.
Seguramente solta daqueles braços, vivi mais um dia dos meus longínquos 13 anos.
Mas agora conchegante em minhas certezas, as favas as fraquezas.
Beijo pueril de dois adultos acriançados.
Os olhos cerrados.
Beijam.
Os olhos cerrados... Me adormecem.
domingo, 8 de abril de 2007
Jogatina de Copas
Tão bem passadas que quase esturricam na memória. Lembrança que carrega aquele arrepio lento.
Piso descalça apenas para sentir que estou aqui.
Para me entender finalmente sozinha e nua. (Quem sabe) Pela primeira vez.
Tudo mais prático-ável.
Solidão consentida.
Saída pela tangente para entender a matemática inexistente das coisas. Cansei das tuas manias.
Pego me dentro de mim na prisão aveludada, escrevendo melo-dramas adjuntos do bloqueio criativo.
Sempre mais fácil achar a tetricidade da vivência.
Atropelou-me a inocência sem parar para acenar um adeus prosopopéico.
Materializa o sentimento para então falar em sinestesia.
Oculto meus verbos para rotular-me zeugmática.
Despencada nas formalidades embebo-me em pragmatismo.
Perdida, confusa e acuada.
Mais fácil se lamentar. Dispenso agora os caminhos curvados. Basta de construir, a opção desgastou, hoje tão pouco estou para realismos ou para psicanálise.
Um texto torto adequado ao sen-sen-tidismo. Não quero ser algo para existir.
Respira desse ar rançoso que já vive; Às de espadas do baralho envelhecido.
Que me explodo em esbornia colorida para quem sabe virar confete e respingar alegria.
As favas com as mazelas do mundo, com a (in)felicidade dos outros. Quero virar ego e me deglutir em egoísmo.
Para poder gozar de minhas manias sem lembrar as tuas, sem sentir a culpa do abandono, sem ter os calafrios de saudade que são (quase) asquerosos.
Sendo eu na complexidade simplória das coisas, me entendo, melhor só to que alheiamente amaniada.
A-maniada agora. Porque o “a” sufoca, mas também nega. Passar pelo processo de dês-maniação.
Ser completamente da-dá.
Para me justificar, poder tomar posse do nada e retorcê-lo em novos vícios.