segunda-feira, 16 de abril de 2007

Uivo

Os lábios rosados assoviavam de forma morta e incomoda. Barulho continuo sem sentido interrompido apenas pela língua despótica que seca encontrava os dentes e bloqueava a saída do ar.
Deitada.
Mãos entrelaçadas unidas entre as pernas, reza espremida por aquelas coxas brancas. Estava entre o entorpecimento e a viva pulsação. O peito ronronava tuberculoso dando as notas mudas do último tango argentino.
A cena, no entanto, não apresentava nem uma gota melancólica.
Apenas exalava exaustão.
A luz do quarto estava alaranjada como todos os dias, os olhos enegrecidos se ergueram, os insetos iam de encontro a lâmpada quente.
Era verão.
Rodeavam na sua missão sem nexo, procuravam algo que, talvez, jamais poderão entender. Contudo algo naqueles baquezinhos surdos lhe trouxe alguma felicidade.
Simples. Objetivo de vida (quase) trivial.
Dura até que suas asas caiam, então não poderão mais voar.
Ficavam aprisionados naquelas forma quanto tempo? Talvez penas vinte e quatro horas.
Existe nisso tempo suficiente para sentir algo?
Meros escravos de suas funções biológicas, nascer, comer, reproduzir, bater contra a lâmpada e morrer...
Qual fora a última vez que bateu contra a algo inútil?
Incandescência.
Era agora covarde.
Passos e planos grandiosos eram hoje apenas sombras. Covarde.
Não olhava as próprias rugas no espelho. Faltava coragem. Não conseguia admitir que um dia berrou planos de mudar o mundo, aquela garota que ia mudar o mundo, a garota de cabelos vermelhos intensos, de lábios pintados, de grito estridente simplesmente mudou, havia simplesmente desbotado...
E não sabia no bolso de qual paletó havia se esquecido. O restante fraco que sobrou bebia nas noites de sexta-feira e escrevia deus com letra minúscula.
Rebeldia.
Rebeldia?
Piedade deus, por ser tão covarde. Tinha se traído. A rotina era maravilhosamente cruel com ela. O desconhecimento súbito da vida lhe assustou confortavelmente.
Poeta, amante, amada, atriz, chorou, sofreu, riu, cruel, tripudiou, pisou, caiu levantou, sentiu o doce gelado do sorvete esquisito, destilou todas as bebidas do mundo.
Agradeceu aos homens por terem ido embora e também ao mundo por ter girado e não tê-la deixado parar jamais. A morte que a olhava nos olhos avermelhados agora e a achava tão viva... Obrigada.
Impregnada de sonhos custeados e vendidos. Barato,
Tudo tem um preço, barato demais foi o dela.
Cansou-se de correr na direção contraria, parou de rolar os dados, desistiu do jogo.
O corpo pulsava, definitivamente, pulsava. Em um compasso emudecido daquela sinfonia inexistente.
Procurava respostas sem perguntas. Nada parecia brilhante ou digno de louvor, mas aquilo de alguma forma curiosa lhe bastava, caprichosamente, bastava.

Nas mãos tão brancas esmagavam rosas roubadas igualmente brancas e delas gotejava um liquido vermelho espesso. Roubo. Esmaga sem a delicadeza que não lhe é peculiar. Não foi amor, nem ódio, nem rancor, eram as malditas engrenagens batendo seu coração.
Maquinal.
Estava agora tão pulsante que o corpo teimava em tomar vida. Sentia as contrações uterinas daquele ventre seco e sem vida. Sentia as dores do parto e a (dês) alegria de jamais ter dado a vida.
Era ela própria continuação e fim de nada. Os olhos pregados naquela lâmpada, naqueles insetos pegajosos que insistiam em colidir com tudo aquilo que parecia sistemático.
Se pudesse sentir raiva ou paixão naquela cena talvez se movesse. I-móvel. O torpor diário, indolência já tão obsessiva.
Batidas.
Compulsão.
De novo e mais uma vez.
Seus olhos semi-cerrados não podiam compreender.
Seus olhos negros injetados não queriam voltar a ver.
Pul-sa-ção. A carne toda contra o peso daquela falta de indignação, contra o luxo e os tons alaranjados do quarto.
Chegada a hora de vencer a bonança. Pedaços apodrecidos sozinhos se reergueram. As mãos esticaram ao lado do corpo saindo daquela posição de reza herege e profana.
Um dos braços esticou em direção a lâmpada, queria queimar a ponta dos dedos, pegar todos os insetos e comê-los. Um a um. Seus ossos poderiam ser curtos demais, sua pele pouco elástica e sua condição... Humana demais. Não importava.
Os dedos.
A lâmpada.
Os olhos injetados.
Estica.

Daquela flacidez mórbida um sorriso (in)contido (in)comum.


A luz queimou.

Um comentário:

Alice disse...

aprendiz de cazuza, você não tem o gen da acomodação. desiste. vai queimar todas as pontinhas dos dedos...

te amo, pequena destruidora da paz dos comentários.