domingo, 30 de setembro de 2007

Regressão de estilo

As palavras naturais escapam da boca, sorrateiras, lambidas em algum instinto animalesco e quase dês-contentes.
Auto-zoomorfização que me arranca a razão e mesmo assim prega as quatro partes no chão. O chão é quente. Quente também é aquilo que pulsa nas veias, um líquido vermelho qualquer que jorra e injeta meus olhos.
Ressaca constante da velha bebedeira de vinho e sangue tinto, mistura que mancha de tragicidade algo que devia ser tão, tão simples.
Como o mestre que é obra de seu criador sambo na esquizofrênica Caieira e me ensandece a vontade de resumir meus pedaços a intransitividade.
Fugi, corri, morri.
Devorar é cheio de possibilidades sempre esvaziadas.
Eu quero. Ponto. Mato qualquer complemento necessário.
Momento tão enjoativamente superlativo me acomete como um banho de tinta. Hoje é algo que não nascia ontem e terá se apagado amanhã. Sobram as linhas fracas da caricatura medonha descascando o doce aprisionamento.
Estar preso por meias vontades, por meias verdades, por meia covardia e por inteira miragem. Grita a epifania esganiçada. Todas as dúvidas se vão, todos os sentimentos se vão, todo desejo se nega, quase tudo decidiu pelo não.
Gotas que me transformaram em sinestesia fogem pelas frestas, entraram pela janela banhando de lua os pensamentos, agora saem envergonhadas por debaixo da porta.
Sobrevive o gosto avermelhado tão agradável aos meus ouvidos. Textura que não me diz nada canta a trilha sonora das minhas meias tristezas.
Melancolia juvenil. Os olhos verdes do herói daquele primeiro livro, os olhos igualmente verdes do monstro de Otelo, também aqueles que me viam apaixonada aos 15 anos e os que hoje me assistem vagos e perdidos na minha bipolaridade.
O mar é balanço enjoativo e instabilidade perpétua. Espreito com as esquinas de meus olhos mancos a curva que te contém adiante e todo esse sal me incomoda.
Apareceu bulindo com minhas idéias pregadas e eu te des-costurei. Deixa... Sem foto o porta retrato que sempre habitou vazio o meu criado mudo.
Mudo. Não fala.
Mudo. Vou pra outro lugar...
Contanto que seja longe o suficiente para me encontrar.

sábado, 11 de agosto de 2007

Jogo de Louça

Meu Pai morreu.
Não sei exatamente se no fim da noite ou durante o amanhecer. Não importa. Tropeçou em uma hora vaga e ficou no caminho, estirado e gelado no chão de carvalho.
Faltou a mim, contudo, a curiosidade para perguntar o que havia acontecido. Ataque cardíaco, aneurisma, pneumonia, coqueluche, hepatite, bebedeira, nó nas tripas... Basta saber que morreu.
De que morreu seu Pai?
Papai morreu de morte morrida.
Jazia ali adiante, taciturno e mal humorado como de costume, não fossem as mãos cruzadas sobre o peito estático talvez o desse por vivo.
Estirado em cima da mesa de jantar da sala. Onde ainda ontem almoçávamos peixe com batatas, onde muito em breve vou tomar café da manhã. Por cima das últimas gotas de suor frio de meu pai.
Eram oito velas. Quatro dentro do espelho outras quatro fora dele, enfeitavam as quinas da mesa os cotocos amarelados de cera.
Algo quase mágico acontecia na cena e eu miúdo e esquecido no canto da sala, como de castigo, assistia atento a peça. Mamãe melancólica olhava para o defunto, exibia o rosto inchado e um lenço molhado entre os dedos compridos.
Às vezes alguém atravessava a porta, silencioso e todo urubu, chegava com passos arrastados perto de Mamãe com um sorriso quase sentido e um abraço frouxo.
Uma pena, nos deixou tão jovem.
Meus sinceros pêsames.
Era um grande homem.
Não fique assim, com certeza ele esta em um lugar melhor,
É mais um anjo para orar por nós.
Papagaiavam as mesmas frases, Mamãe respondia com meio sorriso e, vez ou outra, algumas lágrimas. As vezes eu a via levando uma mão a boca e a outra aos cabelos, por um segundo passageiro eu tinha certeza que cairia no riso.
A gargalhada gutural, longa e asfixiante.
Recompunha-se. Depressa. Lançando então um olhar pudico e molhado de volta para meu Pai.
Eu a entenderia. Talvez me unisse a ela para que fizéssemos uma sinfonia familiar. A censura, contudo, seria mais do que poderia suportar.
Dona Francisca deixaria cair a bandeja de bolo de fubá, assados especialmente para a ocasião, Balthazar esmagaria o chapéu coco entre as mãos, talvez Dalva e Justina depois de um segundo perplexo correriam para acudi-la, seria necessário conter a loucura.
Horrorizados.
A tristeza deve se desfazer em lágrimas, de preferência contidas, os adultos não devem fazer barulho quando choram.
E se de repente me acometesse a vontade insana desse riso de Mamãe.
Não chorava, nem gemia. Não estava pálido, nem trêmulo. Só conseguia sentir culpa, justamente porque não sentia nada.
Onde se esconderam? A tristeza, a melancolia... O maldito desespero não vinha!
Inerte e munido de grandes olhos secos que perceberam a sala anormalmente escura naquela manhã. Nada além daquilo me incomodava, na verdade, a falta de luz quase me incomodava, não levantaria para abrir as cortinas ou acender o abajur...
O bolo foi sumindo, pedaço por pedaço, as xícaras sujas de café uma a uma apareciam pelos cantos.
Foi então que alguém levantou. Espreguiçou felinamente e arrastou os passos até Mamãe, evitando olhar diretamente para o defunto. Escolheu aleatoriamente e recitou mais algumas daquelas frases baixinho... Porque baixo? Certamente papai não reclamaria.
Enfim, meteu o chapéu na cabeça.
Meus pêsames.
Partiu.
Pouco a pouco encontravam coragem para sair. Deixar a viúva sozinha soava tão errado, mas o tédio eventualmente transbordava aqui e ali.
Meus pêsames.
Partia.
Meu pai seria para aquelas pessoas um pensamento breve ao longo do dia e a fofoca de amanhã. Não era importante o suficiente para sair na manchete do jornal, o obturario de poucas linhas parecia justo... Suficiente... Conformado.
Seria resumido ao assunto de D. Francisca na igreja, de Balthazar na barbearia ou de Dalva e Justina com as demais empregadas do bairro.
Sabe o homem alto que morava na 207 daquela rua ali atrás com nome de santo? Então! Ele morreu!
Deixou mulher e filho pequeno. Muito triste.
Ah! Acredita que a Carlota apareceu! Não achei que fosse dispor de tanta coragem e atrevimento! Ainda mais vestindo uma roupa tão pouco apropriada para um velório.
Não vi ninguém do trabalho... Poxa... Ele me parecia tão querido.
Papai viraria então assunto secundário, o bolo o café, a falta de chá, a tristeza de mamãe, meu destino, a roupa de Carlota seriam os personagens principais dessa comédia.
Não os condeno.
Realmente é um tópico pouco interessante para quem não tem um defunto estirado na mesa de jantar, em suas casas sobre a mesa apenas a toalha, os pratos, os copos e talheres.
Não haveria também a ausência da louça no dia seguinte.
Mamãe por fim se recolheu, Dalva e Justina levaram as xícaras para a cozinha.
Fiquei sozinho com restos de Papai, as velas, o espelho... E a falta de louça.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Impulso das três da manhã

Não estava mais com sede... Mas de qualquer forma seria melancólico ver o fundo desse copo. Marcaria o fim de algo.
A dor de estômago que me gerava a falsa fome corria garganta a fora causando o enjôo familiar. É a sensação que sempre acompanha o fim do riso.

Saio do cômodo vestida de vermelho, a mais bela blusa vermelha que tenho. Como se fosse importante pavão para que todos olhassem a vermelhidão que passava.
Prepotência engarrafada. Bebo sem querer ver o fundo da taça.
Seria lamentável que o caminho acabasse.
O corredor parecia enfumaçado e eterno, os padrões quadriculados do chão me causavam risos pulmonares. Preto, branco, preto, branco. Era o jogo de xadrez humano e eu uma peça vermelha.
Os passos intermináveis iam felizes pelo corredor tão interminável.
Passos que batiam ocos no chão, ora pulando nos quadrados brancos, ora nos pretos. Uma amarelinha descolorida que ganhava de fundo uma trilha sonora descompassada com o ambiente.
Desafinada para a falta de fim do momento.
Não ouvia a música, os passos, as conversas, podia apenas escutar o vermelho que me deu ares poderosos.
Tinha cheiro de baunilha e notas semi-breves.
Se o jogo de xadrez acaba logo adiante encontro outro tabuleiro para prolongar a brincadeira.

Entro no cômodo vestida de preto. A blusa mais comprida que tenho, me esconde da esquina de outros olhos.
A chave tilinta no trinco. Grande demais.
É o vermelho de copas o preto de espadas em uma partida de Alice no país das Maravilhas. Puxo a carta que sustenta o castelo e pedaços pretos e vermelhos voam batendo os naipes pelo chão da sala.
Termina o líquido escuro do copo em um grito penetrante de felicidade pueril. É criança espremida em um canto qualquer do corpo. Suco.
A cama chama e chama...
Meu corpo procura a cama.
O lençol frio fez deixar os jogos e as roupas para trás...

domingo, 17 de junho de 2007

Obs

A.Q.I.P.

Detestando tudo q escrevo....

Sem mais.
Grata pela atenção

Copo de plástico

Estava diante de si, como sempre estivera. Diante da folha branca a mão branca segurava o grafite negro. Olhavam-se naquele diálogo intenso e mudo. Tanto a rabiscar e tão pouca destreza, tanto a contar e tão pouco conhecimento das palavras.
Chegou há tempo de tomar o último gole frio de café, daquele bule que acordou sobre a mesa solitário não fosse as xícaras que o acompanhavam, o par de xícaras um pouco envelhecidas pelo descaso.
O gosto amargo do sorvo seco ainda estava em algum lugar do céu de sua boca. Masca. Masca. A saliva seca que não consegue engolir, resseca nos cantos dos lábios opcaqueados.
Mente inerte lhe parecia tão prolixa naquela manhã.

As Pessoas dentro dela conversavam se atropelando, guimaraniando palavras, euclidiando fatos sertanejos de terras, homens e lutas, clariceando epifanías, cabraliando de melo suas retiradas da vida tão severina, tossindo a manuel suas dores e alvareziando seus amores inatingíveis.
Fechava os olhos tentando filtrar uma ou outra voz, aquela idéia mais tétrica, quem sabe a mais bonita dentre elas. Ouvia aquele murmúrio recorrente, mas o ignorava. Farta, estava farta dele.
O olho escapou da folha para encontrar a mancha seca de vinho sobre a mesa. Arrumar as coisas, limpar o derramado... Não.
Sangue querido envelheceu.

O sussurrar aumentava.

Sobre a mesa taça de cristal, quase transparente a permitia ver o outro lado da sala... Destorcido...

Já era fala clara...

O cálice nas mãos. A pressão dos dedos.
Cálice.
Era grito.
O grito tilinta os cacos no chão.

Linda morte de pequenos brilhos.

Os cotovelos cederam mais uma vez as vozes.
Ta-que-car-di-a. Costura a mortalha com imagens moídas.

A epopéia tornou-se tediosa. Talvez apenas preferisse pensar assim...
Noite de olhos verdes a uma breve eternidade de tempo... Batida e abatida.
Entre a verdade e a mentira pendulava. O tempo a dava tempo para criar, fertilizava-lhe os campos mentais e de lá brotava os gestos inexistentes, as meias palavras quase belas...
As mãos se apertavam em reza à moda Augustiana cética como seus anjos. Era, porventura, exatamente assim, poesia-nojo, belo-desesperador.

Libertinagem, que os amantes não cabiam nas mãos, nos pés e em mais nenhuma parte de seu corpo. Gastos, enrugados... E ainda assim ecos de uma manha de outono amarelada.

Nada lhe dizia muito sobre nada.
Conquista e enjôo, tudo lhe parecia um breve suspiro de interesse.
Dominação. Provação. Abandono.
Jogar seu próprio jogo a permitia quebrar suas próprias regras.

Aqueles olhos oblíquos e dissimulados ao melhor estilo Machadiano dotados da mais incrível ressaca. O estomago revirava, a cabeça doía, vomita logo as palavras roubadas.
O espanto. E ficara para trás.
Amor verdadeiro que durou um segundo.

Desperta sempre em um baile de mascarás vienenses. Encantada com os movimentos dos vestidos que não sabe usar... Com os sorrisos todos iguais... Os olhos que revelam o que se esconde por debaixo da fantasia.

Rasga a roupa no poente...
A música se foi em um estalo surdo, mas... Ainda dançam na mudesa.
É belo.
Batem a porta outros corpos que nada tocam, apenas a fer(a)-ida.

O corpo
A carne
A fome
A carne
O desejo
A carne

Presa ao espectro metalizado em zinco viu-se de novo consigo.
Aquilo tão remoído e editado que era obra prima.
O lápis no chão e o papel em branco.
O texto pronto.

Levantou limpou a mancha de vinho, levou o bule de café para a cozinha deixando ali apenas os cacos do cristal.

domingo, 10 de junho de 2007

Isto não é um porta retrato

Chorei
Naquelas páginas
Lágrimas sinceras
(Quase) feitas de amor

Lembranças entorpecidas
Prazer mórbido perdido
Daquilo que ruiu

Morreu

Minado e invadido
Matado e morrido

Vê.

Amei quatro homens na vida
O primeiro, errado
O segundo, inocentes
O terceiro, sentimento doente
O quarto exemplo condecorado

Nesse pentágono
Ninguém foi capaz de amar
Capazes de quase amar
(Talvez)

Amamos a nós mesmos ou
Odiamo-nos uns aos outros
Como quaisquer
Simples
Seres humanos

Vivi

Quatro vidas
Oito filhos
Agora mortos

Diferentes profissões
Punhais todas
Crava as costas curvas

Mudei, pirei, renasci
Para que fosse possível...
Viver (?) novas vidas



A foice
Não é o rompimento
Tão pouco o quase amar

Cavalga a morte em uma fênix
Do pó ao pó
O saber urobórico

Sabendo que não será,
Dizer sem significar
Acreditar...
Eterno

Tatuagem, cicatriz e lembrança

Nós...
Acabáveis.

Quartos que não entrei
Camas que não dormi
Corpos que não possui

O que neguei
Perdi e me perdi

Acreditar
Naquilo que não se vê



Anti-ceticismo
Esquartejado

A cobra
Sempre alcança o rabo

Tendencioso e viciado
Apaixonado

E volto
Para a antiga e querida

Nova vida

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Árvores

Meu destino foi pago para ser visto nas estrelas

Longe

Da hiper-atividade dos oito anos incompletos
Lembro do homem envelhecido e manco porta dentro entrando

Sentou e nada do que foi dito me pareceu relevante
Eu pulava atrás dos sofás
Gente desconhecida atraia minha atenção

“Ela vai gostar muito de plantas”

Ao que eu respondia

“Gosto de animais”

Seus olhos jamais pousaram sobre mim
E dirigida diretamente nunca uma frase

Disse à mamãe
“Melhor que ela vá para o quarto, vou falar sobre você agora”

Assim saí, fui dormir... Pensando que não gostava de plantas.

Quantos anos depois o assunto me acometeu
Que tinha sido feito de tudo aquilo?

Mas... me contaram
Meu destino estelar nunca foi escrito, o de mamãe jazia em casa solitário

Sobre mim mais foi dito, a apenas um par de orelhas que não quis falar sobre o assunto

A boca havia morrido
Minhas estrelas enterradas ali

Os olhos de mamãe vezes recaem sobre mim oblíquos
Acompanhados de suspiros lamentantes
Ou de sorrisos pregados

Despedem–se logo para cuidar de si

Deixa a noite em seu lugar

Uma estrela pode ter morrido...?
Que foi feito então de meu destino?!

Planta a vida aqui para ser mantida no lugar

terça-feira, 22 de maio de 2007

Berrero

Quando eu era criança
Não entendia...



Por que os adultos choram mudos?

domingo, 20 de maio de 2007

Carta de dês-amor

Queria sentir-me amada só de te olhar.
Sentir calor só de respirar o ar denso do seu corpo cansado.
Vejo em você tudo que eu já tive. Não sei se são os olhos esverdeados que me acompanham, o monstro de olhos verdes Shaquesperiano, ou se simplesmente decidi assim.
Que gosto de ter nos braços todos os amores já sentidos, todo aquele ardor tão concebido e já quase esquecido. É seu rosto que me faz lembrar da infantilidade que passei...
A carência é luz que lambe o corpo nu, e eu a sinto só, pois solidão não vem em conjunto.
Que estou sozinha em mim-comigo-e-sem-mim, pois não posso deixar de me ser. Gosto de não ser.
Não é mais tempo de dar atenção a integridade não é ela que me esquenta ou me mantêm sã.
Comprei os valores com qualquer epifania barata de supermercado com a nota bêbada e amassada do fundo da carteira.
Então vejo sorriso meigo que de tantos outros sorrisos meigos é grande e apaixonado. Queria sentir-me amada só de olhar, completar o que saiu pela culatra.
Tangencia a pele sem jamais tocá-la, mesmo com a mão cheia que me aperta o corpo contra a parede.
Que meus suspiros e gemidos são apenas o teatro diário para agradar, seja meu ego, seja seus desejos que tentam me consumir. Não, não consegue. Que tudo que me acompanha te impede.
São amarras in-seguras que te ligam a mim... Que se quebram e te derrubam.
Piso, por que posso. Piso, pois sei fazê-lo. Piso, não importa mais...
Que me tenho toda pra mim, contida no frasco de perfume, embebida em qualquer outra coisa sem álcool. A embriaguez passou e as flores do jardim já não riem de mim, de fato, as flores do jardim não são mais flores.
Ando no quintal toda quintana, mariando frases de efeito, procurando em vão por todos os cantos os óculos perdidos que mudos estavam na ponta do nariz.
A busca acabou e os óculos continuam perdidos só um palmo adiante, dês-importante, as vistas se acostumaram com o não-ver. Gosto de não ver, de não ter que ver e então não precisar me justificar.
Enterrei os valores na terra imunda e sem lapide e me bastei.
O corpo úmido de lambidas de luz treme no instinto.
Que sou toda vinho tinto prestes a te em-tornar tudo aquilo que já vivi.
Convenço meus próprios botões cansados que é assim e então acredito no que quero.
E ainda assim, me faz falta o gozo interno, o amor eterno que já desacreditou, a saudade de sentir saudades bateu na porta e adentrou...
Bebo o frasco de perfume para que cresçam as flores por dentro e que saia da boca o bafo embriagante do álcool, ou... Esqueço de começar de novo e continuo andando.
Eu não espero... Apenas... Ando...

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Helena 5

Tocava o espelho com certa admiração perdida, as pontas dos dedos riscavam seu reflexo . Podia ver-se em plenitude, deliciar-se por completo. Estava nua diante de si, via a verdade ali refletida. Acreditava em seus olhos, que sempre foram seus.
Suas curvas eram perfeitamente humanas, não mantinham o padrão das capas vagabundas das revistas, mas a agradavam. Os traços pareciam familiares e o sorriso indocil completou seus vapores apanterados.
A boca ressecada mordeu-se. A mão foi de encontro sentí-lo. Como se o desejo incontido estivesse ali na pele gritante de poros abertos. Exibia-se sabiá, tinha, contudo, as penas anoitadas.
Helena era ponto aleátorio toda costurada em carne e sangue. Ponto. Às vezes a perturbava perceber a momentaniedade. O que é superlativamente impressindível torna-se antes que percebamos tédio, monotonia... Deve ser esquecido.
Era ponto de convergência, mas divergia.
Diante de seu olhado reflexo pensava em si despensando em si sendo si des-sendo si, descia as mãos por si. Mãos encandidadas pela falta de sol, marcadas por toda a loucura passada. Superlativo! Que passado o dia cedia ao sen-sen-tidismo.
Se gritasse pecado, ninguém ouviria, nem a própria Helena, nem Helena refletida. A regra fora desrespeitada ontem, hoje outro dia.
Faltava-lhe o remorsear, faltava dar valor às árvores que plantara no jardim. Estariam lá no dia seguinte. Para o inferno! A vida dura na história menos de um dia.
Erva-daninha do jardim daquelas rosas-rosas.
Vivia.
Os lábios finos libertaram um sorriso igualmente fino. Apaixonara-se por aquele momento de auto-julgamento. Senhoras e senhores membros do juri... Helena entranhou a todos vocês.
A verdade a via de volta amigavel, acariciando o que tocava. Deixem-na com seu prazer bipolar. Com o pavonear de suas inseguranças. Com os caleidoscópios que misturam as reaissurrealidades.
Um segundo de distração.
Os olhos a olharam de volta. O gosto amargurado voltou-lhe do estômago. Não era mais Helena que via o reflexo, mas o reflexo que a via.
As mãos descolaram do corpo, contudo a vontade própria de sempre era familiar, estranguladora. A boca costurou o riso. Os ouvidos ouviam gritos gritados. Gritavam tudo que não queria ouvir.
Sentenciavam seus dias anteriores, seus prazeres de ontem. Ponto de carne e sangue sentia o desalinho, vozes rotas que não podia suportar.
Seus dedos apertavam as palmas, perfuravam-nas. Redenção. Redenção? O flagelamento desencadeado, maquinal, automatizado. Bastaria? Serviria? As mãos estranguladoras eram menos doloridas do que as palavras igualmente estranguladoras.
As dúvidas cessaram de súbito com o emudecer dos gritos e com a explosão. Os olhos queriam fechar. Não fecharam. A mão queria abrir. Não abriu. O corpo queria cair. Não caiu.
O braço subiu.
Helena em cacos no chão.
O ponto costurou seu sorriso na carne.
Helena saiu.
Para amanhã não se importar com ontem.
Pecar?
Divergir.

OBS

o post abaixo originalmente não é assim
tem espaços... MUITOS espaços ao longo do texto..

o blog se revoltou
e comprimiu tudo!!

me restou engolir o comprimido mesmo...

Dês-inchando

Apague o som e tire as luzes.

Rápido o suficiente para que eu não sinta dor.

Tranque a janela por fora e puxe cortina sobre a porta.

Assim tudo voltaria ao seu lugar.

Para que as mãos me procurem de novo.

Rabiscar meu corpo com os dedos firmes de giz de cera

Deixar tudo colorido, tudo cafonamente colorido.

Para que eu possa brincar dessa felicidade esquisita.

Que nunca pude entender.

Brincar de marido e mulher

Daquele desgosto todo que é

Estar preso

(Mesmo que) por vontade

Bebericar da rotina em cálice de prata

Planejar o nome do cachorro

Entrar em um consenso sobre o nome dos filhos.

Dês-aprender

Largar de mim num precipício

Desistir da utopia juvenil antes mesmo dos vinte anos

Para ser tida responsável e uma menina direita

Que sou esquerda e toda torta

Tentam... In-direitar

Meus olhos amarelados vêem

Esse futuro glorioso

Ir trabalhar de amanhã e ter o jantar quente em casa

Como foi seu dia?

Blábláblá diário de como o país é uma bosta (perdão)

De como nada vai pra frente...

Prefiro andar de trás pra frente

De costas para o que vai acontecer

Tenho paixão pelas surpresas

Enfrentando de peito aberto o que vier

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Para de passar o tempo à toa!

Menina tola!

Rabiscando escrevendo fotografando

Que isso não leva a nada

Larga dessa meninice!

É apenas uma meninota

Sem-graça

Esquisita

Meio (ou inteira!) largada

Deixa tudo isso de lado!

Esquece

Em-mulhereça

Leva o espelho contigo

E não esqueça a maquiagem

Senta e estuda menina torta

Que teu futuro já esta escrito

Vai ser esposa do filho do meu amigo

Que é bonito e muito rico

Vai ter tudo o que quiser

Um casarão

Abarrotado de coisas caras e in-úteis

Festas de gente importante

Viagens, carros, jóias

A folga eterna do trabalho

Muda

Transforma!

Cala

Mente!

Seja o necessário

Nem menos

Nem mais

E assim vai ser feliz...

Muito feliz...

domingo, 29 de abril de 2007

Repente Noturno

Penso. Porque, no fundo, a única coisa q sei é cismar.
Caneta mordida pende entre os dedos riscando o papel amar-elado pela luz, a sombra da mão escurece as palavras.
Penso. Já é hábito e não consigo me livrar dele. Nem tento.
Velho habito que persegue abatinado de preto, imagem minha que me olha de dentro do espelho. Ilusão.
Existe? Doença dos meus olhos ex-au-s-tados?
Se sou sã tenho orgulho da loucura estabelecida entre as linhas, se não meto a mão na luva listrada e saio rápido daqui.

Saudosismo. Do eu te amo falso acompanhado dos olhos enjoados e do sorriso pregado.
Olhos de adoçante. Sorriso de zinco.
A tinta do rosto rachou sozinha, mesmo havendo as cuspidelas colantes, desfaleceu.
Cacos de plástico ti-lin-tan-do pelo chão.
Era estabilidade, agora perdida. Liberdade ad-querida que não sabe ser.
Procura a parede para se apoiar, mas ela nunca existiu.
Já houve uma menininha encostada no muro, os dois lados brigaram, um deles perdeu, o muro caiu.

Vá com dedos leves no escuro que me encontrará lá.
Deitada na cama contando historinhas para mim mesma naquele segundo antes de dormir. Procurando me livrar da rotina o que em si já virou... Rotina.
Lençol sobre a cabeça. Penso. Pinga. Penso. Pinga, a irritante torneira que não fecha, irritante cabeça pensa iludindo os olhos de meias-verdades pendidas entre a menininha e a falta de muro.

Cismo, é o que resta. Amanhã é sexta... Acabou a festa.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Fábula: A mosca e o Professor

Meu professor de matemática estava dando aula
todos aqueles números sem sentido gritavam desesperados na lousa

Eu olhava

Uma mosca também...

Voou de encontro a morte dentro do olho do professor



Se ela for kamikase é heroína


Se for mulçumana é terrorista

domingo, 22 de abril de 2007

o ato de des-me-ninização

Ah! A menina cresceu.
Mocinha!
Já é uma mulherzinha!

Já não pensa mais para fazer as coisas.
Não porque seja impulsiva... Ah não
Porque isso passou
Passou com a primavera que se foi

Quase a encontra às vezes...
Mas vive no outono amarelado
Em um outubro qualquer

Chega de bananada
De palhaçada
De noites claras

Toma banho olhando para os azulejos rachados
Com aquele leve trincado na ponta
Que quase, quase a incomoda
Mas não o suficiente para mandar trocá-lo
Convenceu-se que ele da personalidade ao lugar
Fecha o chuveiro e depois mal percebe
Que o banho passou
Não vê mais nada passar
Torce o registro e a água para de cair

Faz.
Faça

Que não a nada de errado com isso.
Há?
Não há!
Há!
Não há!

Perdeu também o costume de questionar-se
Perda de tempo?
Esquecimento

Junta as mesmas palavras
Todos os dias
Bom dia!
Passar bem!
E qualquer diálogo de elevador que consiga lembrar

Nossa! Como anda fazendo frio!
Não agüento mais esse calor dos infernos

Insuficiência diária.
Sempre algo de errado.

Importa?
Não importa
Importa
Não importa
Talvez exporte
Ou esporte.

Aquelas pessoas que vê pelas manhãs
Do sorriso amarelado quase simpático
De nomes desconhecidos

O desejo trai
Então dês-desejou as coisas
Mantendo-se fiel a si

Veste-se de branco às segundas feiras
Preconceitos à parte, pois nunca entendeu
O que havia de errado com essa frase

Tirou a meninice da tomada
Embalou e deixou esquecida no freezer
Entre a carne velha e esquecida
E a lasanha para microondas

O muro caiu
Nem divisão existe mais
Agora há ela com ela
Ela sem ela

Não podendo mais viver consigo
Nem sem-sigo

Segue

Na quase vida que é comum a todos
Passos de boneca crescida
Livro empoeirado na estante
Poema sem métrica ou rima
Rosa-rosa desaperfumada

Dês-apercebe
..Segue
.....Segue
.........Segue

Ah! A menina cresceu

sábado, 21 de abril de 2007

Adeus Andrade

Diz José! Aonde você vai?
Diz! Para saber se vou ou não contigo
Se corro se choro ou se grito
Ou se me atiro no mar
.............O mar já secou

Anda José! Desembucha!
Que as horas me amar-gam angustias
O tempo é findo para arrumar as malas
O braço esticado reclama do longo a-deus
A valsa vienense da vitrola já cansou
..............O disco riscou

Vai José! Vai pra onde voltará?
Me diz! Pois se muito longe fico
Arranjo a vida remendando
O ponto no pano antigo
E se vierem fios brancos...
.............. O espelho estilhaçou

E então José! Onde meteu as passagens?
Nelas o teu destino e a decisão do meu
Monto contos de fada e castelos no ar
Ou azedo histórias de amor no bar
Basta das amar-ras! Desem-besta homem!
............A corrente quebrou


José partiu.
Numa sem graça manhã de terça
Nem sol nem frio
Eu sabia que, em algum lugar, chovia
Em cima da mesa jazia bilhete de despedida
.................... Em branco.... A tinta acabou.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Uivo

Os lábios rosados assoviavam de forma morta e incomoda. Barulho continuo sem sentido interrompido apenas pela língua despótica que seca encontrava os dentes e bloqueava a saída do ar.
Deitada.
Mãos entrelaçadas unidas entre as pernas, reza espremida por aquelas coxas brancas. Estava entre o entorpecimento e a viva pulsação. O peito ronronava tuberculoso dando as notas mudas do último tango argentino.
A cena, no entanto, não apresentava nem uma gota melancólica.
Apenas exalava exaustão.
A luz do quarto estava alaranjada como todos os dias, os olhos enegrecidos se ergueram, os insetos iam de encontro a lâmpada quente.
Era verão.
Rodeavam na sua missão sem nexo, procuravam algo que, talvez, jamais poderão entender. Contudo algo naqueles baquezinhos surdos lhe trouxe alguma felicidade.
Simples. Objetivo de vida (quase) trivial.
Dura até que suas asas caiam, então não poderão mais voar.
Ficavam aprisionados naquelas forma quanto tempo? Talvez penas vinte e quatro horas.
Existe nisso tempo suficiente para sentir algo?
Meros escravos de suas funções biológicas, nascer, comer, reproduzir, bater contra a lâmpada e morrer...
Qual fora a última vez que bateu contra a algo inútil?
Incandescência.
Era agora covarde.
Passos e planos grandiosos eram hoje apenas sombras. Covarde.
Não olhava as próprias rugas no espelho. Faltava coragem. Não conseguia admitir que um dia berrou planos de mudar o mundo, aquela garota que ia mudar o mundo, a garota de cabelos vermelhos intensos, de lábios pintados, de grito estridente simplesmente mudou, havia simplesmente desbotado...
E não sabia no bolso de qual paletó havia se esquecido. O restante fraco que sobrou bebia nas noites de sexta-feira e escrevia deus com letra minúscula.
Rebeldia.
Rebeldia?
Piedade deus, por ser tão covarde. Tinha se traído. A rotina era maravilhosamente cruel com ela. O desconhecimento súbito da vida lhe assustou confortavelmente.
Poeta, amante, amada, atriz, chorou, sofreu, riu, cruel, tripudiou, pisou, caiu levantou, sentiu o doce gelado do sorvete esquisito, destilou todas as bebidas do mundo.
Agradeceu aos homens por terem ido embora e também ao mundo por ter girado e não tê-la deixado parar jamais. A morte que a olhava nos olhos avermelhados agora e a achava tão viva... Obrigada.
Impregnada de sonhos custeados e vendidos. Barato,
Tudo tem um preço, barato demais foi o dela.
Cansou-se de correr na direção contraria, parou de rolar os dados, desistiu do jogo.
O corpo pulsava, definitivamente, pulsava. Em um compasso emudecido daquela sinfonia inexistente.
Procurava respostas sem perguntas. Nada parecia brilhante ou digno de louvor, mas aquilo de alguma forma curiosa lhe bastava, caprichosamente, bastava.

Nas mãos tão brancas esmagavam rosas roubadas igualmente brancas e delas gotejava um liquido vermelho espesso. Roubo. Esmaga sem a delicadeza que não lhe é peculiar. Não foi amor, nem ódio, nem rancor, eram as malditas engrenagens batendo seu coração.
Maquinal.
Estava agora tão pulsante que o corpo teimava em tomar vida. Sentia as contrações uterinas daquele ventre seco e sem vida. Sentia as dores do parto e a (dês) alegria de jamais ter dado a vida.
Era ela própria continuação e fim de nada. Os olhos pregados naquela lâmpada, naqueles insetos pegajosos que insistiam em colidir com tudo aquilo que parecia sistemático.
Se pudesse sentir raiva ou paixão naquela cena talvez se movesse. I-móvel. O torpor diário, indolência já tão obsessiva.
Batidas.
Compulsão.
De novo e mais uma vez.
Seus olhos semi-cerrados não podiam compreender.
Seus olhos negros injetados não queriam voltar a ver.
Pul-sa-ção. A carne toda contra o peso daquela falta de indignação, contra o luxo e os tons alaranjados do quarto.
Chegada a hora de vencer a bonança. Pedaços apodrecidos sozinhos se reergueram. As mãos esticaram ao lado do corpo saindo daquela posição de reza herege e profana.
Um dos braços esticou em direção a lâmpada, queria queimar a ponta dos dedos, pegar todos os insetos e comê-los. Um a um. Seus ossos poderiam ser curtos demais, sua pele pouco elástica e sua condição... Humana demais. Não importava.
Os dedos.
A lâmpada.
Os olhos injetados.
Estica.

Daquela flacidez mórbida um sorriso (in)contido (in)comum.


A luz queimou.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

É curto por faltar algo no que sobra

Cama cansada e de olhos cerrados. Leito tão cobiçado, a-mar-ga-drugada que se aconchega em mim fazendo cismar as portinholas de meu cérebro.
Momento espasmado entre o gosto e o sono. Quase acometida pela re-sonância lembro do beijo desajeitado, das mãos desorientadas mantidas fixas, ora olhavam o chão ora, entre receios, tocavam minhas costas.
Brota, então, de mim um sorriso enterrado podendo-se ler em sua violada lápide qualquer blá-blá-blá de inocência.
Seguramente solta daqueles braços, vivi mais um dia dos meus longínquos 13 anos.
Mas agora conchegante em minhas certezas, as favas as fraquezas.
Beijo pueril de dois adultos acriançados.
Os olhos cerrados.
Beijam.
Os olhos cerrados... Me adormecem.

domingo, 8 de abril de 2007

Jogatina de Copas

Cansei das tuas manias. Manias que são pretéritas.
Tão bem passadas que quase esturricam na memória. Lembrança que carrega aquele arrepio lento.
Piso descalça apenas para sentir que estou aqui.
Para me entender finalmente sozinha e nua. (Quem sabe) Pela primeira vez.
Tudo mais prático-ável.
Solidão consentida.
Saída pela tangente para entender a matemática inexistente das coisas. Cansei das tuas manias.
Pego me dentro de mim na prisão aveludada, escrevendo melo-dramas adjuntos do bloqueio criativo.
Sempre mais fácil achar a tetricidade da vivência.
Atropelou-me a inocência sem parar para acenar um adeus prosopopéico.
Materializa o sentimento para então falar em sinestesia.
Oculto meus verbos para rotular-me zeugmática.
Despencada nas formalidades embebo-me em pragmatismo.
Perdida, confusa e acuada.
Mais fácil se lamentar. Dispenso agora os caminhos curvados. Basta de construir, a opção desgastou, hoje tão pouco estou para realismos ou para psicanálise.
Um texto torto adequado ao sen-sen-tidismo. Não quero ser algo para existir.
Respira desse ar rançoso que já vive; Às de espadas do baralho envelhecido.
Que me explodo em esbornia colorida para quem sabe virar confete e respingar alegria.
As favas com as mazelas do mundo, com a (in)felicidade dos outros. Quero virar ego e me deglutir em egoísmo.
Para poder gozar de minhas manias sem lembrar as tuas, sem sentir a culpa do abandono, sem ter os calafrios de saudade que são (quase) asquerosos.
Sendo eu na complexidade simplória das coisas, me entendo, melhor só to que alheiamente amaniada.
A-maniada agora. Porque o “a” sufoca, mas também nega. Passar pelo processo de dês-maniação.
Ser completamente da-dá.
Para me justificar, poder tomar posse do nada e retorcê-lo em novos vícios.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Bilhete de realejo

Venha munido de gritos.
Descarrega um pente todo daquelas palavras espumantes.
Deixe que borbulhe...
E quem sabe assim, você se sinta melhor.

Jogue as barbaridades para adiante, solte a incompetência de teu peito sobre o meu. Faça das suas inseguranças montanhas e diga-me para montá-las.

Repouso.
Pouso de novo.
De onde nunca deveria ter voado.
Aprendi na melhor chicotada ­--- Doce! Doce e querida! --- sentir aquilo que consome. Me-some.

Achava eu bastar em conjunto, hoje basto só.
Escorre o suor fétido da desintoxicação, palavras augustianas que ouvi de mal conhecedor, felizes me escapam agora.

Compensa o vazio que tem! O mesmo que tentava comigo encher.
Enche, me enche.
Estouro.

A velha ladainha risca disco em meus sentidos.
Vejo o som dês-a-sentidado daquilo que descarrega.

Atira em mim!
Vamos! Que custa?!
Atira que quero os gritos do palavrório.

Arromba a porta já aberta para cansar-se!
Que te olho do fundo do quarto com um murmuro-risonho.
Vejo o circo que faz de camarote, lá vai o palhaço chorão.
O macaquinho de realejo mal humorado.
O leão castrado.

Minha vida virou picadeiro.

Venha! Descarrega! Mata meu corpo! Esperneia! Estrebucha até estertorar!

E se o barulho é alto não canso de me rir!

Baixa a lona do circo que esta na hora de ir, ao sair, por favor, apague a luz, encoste a porta e não se esqueça de levar os elefantes com você.

Boa noite.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Juro! Não sou diabética!

Nessa casa nada funciona como devia

Tudo mais ou menos completamente esquisito

Ah!!! Vócê é toda esquisita! Lagarta listrada!!!

Por que a loucura
é até mesmo
formigas andando DENTRO da pia no banheiro.

Não preciso concluir com mais nada...

domingo, 25 de março de 2007

Helena 7

Estava toda consigo. Presa em si como de costume. Já havia se conformado com as formas arredondadas, aprendera até a apreciá-las.
Nua em vergonhas sem-vergonhas semi-vivia ao lado do amante na cama. Aquele momento mórbido, quase clarisseano, que implora para ser vivo... Mas é morto.
Repousava o corpo. Ele dormia, ela pensava. Os sexos quentes.
Respirava de forma voluntária mantendo-se (de) presente.
A insônia a fazia admirar aquele que permanecia ao lado. Era belo e seu gosto era bom. Tanto aos lábios quanto ao toque.
O costume de entranhar os que ficavam por perto já era vício, nada como ter companhia ao verme que vivia dentro dela, solitária querida.
Não sabia mais ficar sozinha, mesmo estando apenas consigo o tempo todo. Mau hábito que adquiriu ao longo dos anos, os cultivava com mãos na terra. Carpir.
Apenas era, e não via motivo para não ser. Existia e já lhe havia passado há tempos o momento mental que via motivo para não existir.
Helena tinha grandes olhos castanhos perseguidores e manias animais para usá-los. Espreitava a presa, dava o bote, deglutia e quando dava-se por satisfeita virava as costas e partia.
Era isso toda Helena.
Seus olhos olhadores olhavam o rapaz. Dormia tão sereno e tão risonho que parecia em leito e mortalha. Foi quando percebeu-se costurando um sorriso nos lábios como se responde-se aos sonhos do amante.
Estava com ele fazia mais tempo do que podia imaginar e até aquele momento não havia se dado conta disso.
O sorriso desmantelou-se súbito.
Não pela epifania chula, mas sim pela percepção de si. Se ele dormia e ela sorria... Helena percebeu que quando estivesse só não sentira falta de uma companhia qualquer e sim daquele corpo, daquele gosto...
Sentou e as mãos procuraram os cabelos soltos sobre o rosto. Como se quisesse tirá-los dali para poder enxergar mais um palmo adiante.
Não precisou pensar para meter-se nas roupas, tão pouco para abrir a porta do quarto e sumir pelo corredor.
Os tênis desamarrados ganhavam a rua.
Não queria.
Não podia.
Os hábitos são vícios compulsivos. Não procurava entender.
Deixou as questões para o verme.
Seguiam juntos e sozinhos para casa mais uma vez.

domingo, 18 de março de 2007

Passos de boneca

Eu JURO que tentei

Nossa e como tentei

Tentei até que o perturbamento me impediu de continuar

Que des-prego palavras que não encontro

NÃO

CONSIGO

CONTINUAR

Posso escrever uma epopéia

Mas, camões que me perdoe...

Amar é tão deturpado
Que é impossível se declarar


MALDITAS PALAVRAS

Desorganizo
perturbo

E ao termino das coisas
Odiei cada silaba que escrevi

LIBERTA!

Para poder

apenas

sentir...

sexta-feira, 16 de março de 2007

Ato falho

Você fez mais um aniversário
É eu soube
Alguém me contou

Você talvez tenha feito a festa com balões coloridos
Mas isso ninguém me falou

Varrido o tempo com os confetes da festa
E daquilo que fomos
Você fez mais um aniversário

Minha lembrança não comemorou

O dia de março existiu
E foi o mesmo dia do ano passado
Embora dessa vez tenha sido somente
Um dia de março

Sua ausência enfim se ausentou
A visão disso me entristeceu
A parte que me completava morreu

Agora sou eu e toda eu
Sem “contigo” e os outros tantos oblíquos

Tenho ódio de versificar as linhas
Mas se passou
Virou poesia para viver mais um dia
Um dia depois daquele de março

Você fez mais um aniversário
Minha memória acabou

quinta-feira, 8 de março de 2007

Bumba

É a moldura do mundo
duas vezes por dia

uma com sono

outra com fome

chacoalha
espreme
cheira mal

chama

dia
a
dia

na pintura viva eu parada o mundo movendo

o padre franciscano usando jeans por debaixo da batina chuta um cachorro que dormia

dia
a
dia

terça-feira, 6 de março de 2007

Sem mais entrelinhas

Quero fazer sexo com todas as pessoas do mundo.
Sem pudor.
Que não tenha, também, que pensar no dia seguinte sobre o futuro inexistente das coisas.
Ato pelo ato.
Ah! Eu queria despir a vergonha e dês-pedir a saudade.
Para que a carne fosse enfim carne. Desmetaforisada.
Apenas cheiro.
Gosto.
Calor.
Cor.

Todas as nucas caçam com os olhos de medusa.
As beijo, todas, na minha distância infinita e os lábios de pantera viram sabiá.
Gosto assim.
Sexo e sexo... As favas com “fazer amor”.
Amar é tempo e paciência, ambas incluídas em meu racionamento mental. Exauridas.
Pinga. Pinga. Pinga. Lembrança mal fechada.
Bebo, então, o resto putrefato.
Esfaqueia o sentimentalismo.

Espírito sem vergonha! Corpo desnudo mostra as vergonhas!

Chocar alguns cristãos com o paganismo só para ver se o filhote vinga.
Vingança rebelde. Em a-razão calculada.

Boemia e libertinagem.
Crucifixo e água benta.

Terrorismo poético.
Terrorismo patético que expõe o que todos temos por fora. Redundância superlativa que faz estilhaçar queixos.


Em cacos é mais fácil comer os pedaços.
Nada ali quer ser compreendido.
Deglutir.
O suficiente para tornar verdadeiro o desejo bipolar. Para que essa verdade (já tão enrugada) tome forma em minhas mãos.
Costura tudo da mesma carne apodrecida.
Borda com pele viva.
Indiferenciados. Todos os corpos são iguais em grandeza e desejo.
Do amor ao paraíso.
Palavras só montam sexo dentro da minha cabeça.
Fora dela sexo se monta no corpo e na vontade.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Verdadezinha

Hoje
fui passear com o cachorro que não tenho


ou melhor

com o cachorro que nunca tive

acontece que...
na volta...










Ele fugiu...

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Despossuir

É preciso.
Muitas coisas são precisas...
E ainda assim reluto em aceitar essa necessidade de ter, de ter que ter.
Não me neguem meu próprio desapego, não discutam comigo o que é trivial. Minhas opiniões me bastam.
Fosse talvez necessária a liberdade... Liberta não posso mais me agarrar àquilo que prende as mãos. Algema.
A pena latente no tinteiro a-guarda os dedos que não chegam.
Treme.
Os dedos que seguram o copo... O absinto amar-go faz esquecer o que tem que ser esquecido.
Momento.
Im-preciso.
Os fatos, maduros e embriagados, despencam naquele vazio entre duas linhas até que possam ser enxergados na ressaca, onde tudo é mais incomodo e as epifanias da noite anterior parecem ridículas demais.
Sou ridícula.
Gosto assim. Des-gosto assim.
Mutação diária do sabor que corre a garganta.
Metamorfoseando o que pode ser mudado.
Muda.
Escuto. Os meus próprios passos no corredor. Batem secos, direita, esquerda, direita, esquerda. Tic-tac.
Até deparar-me com a porta. A pedra drummoniana.
Tudo tem que ser aberto! Escancarado! Deixe o minuano entrar... Minuano de histórias bonitas, amores perdidos. Minuano de aventuras malditas, heróis esquecidos.
O instinto leva a mão algemada de encontro à maçaneta. O que tem no peito dispara.
Não se contam mais as vezes que abri essa mesma passagem, conheço, portanto, o que vive do outro lado. Não im-porta, minhas pernas sempre vacilam...
O cheiro do medo é adocicado.
Queria que todo o beijo fosse o primeiro.
Todo abraço fosse, também, o primeiro. Assim como o cheiro quente da praia no verão, o gosto do que depois viraria vício...
Se entregar.
Arrumo meu corpo como se hoje fosse o último dia da minha vida. Se amanhã não houver tempo me dei o presente.
Rasgo a sanidade e as normas de conduta escritas por pessoas que não conheço. Basta de seguir as regras dos outros, é mais fácil burlar as regras em seu próprio jogo.
Dês-preciso daquilo que não seduz, daquilo que não me faz capaz do desejo.
Apaixonar, pelas coisas, para viver. Desiludir para recomeçar.
Se tudo fosse “o primeiro” não haveria a última briga ou a saudade, a vontade e o próprio vício.
Apego minha carne ao que me faz viva. E esta paixão é para o meu próprio desapego.
Não me parece importante.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Outono

Da-dá

Tinha os pés suspensos no ar, balançavam sozinhos sem que pudesse controlá-los. Os cabelos também teimavam em ficar agitados. Quase estranhava o momento, havia perdido a conta dos anos... Quanto tempo fazia que não aproveitava essa particular simplicidade?
A paisagem fazia parte dos seus dias, mas era justamente isso: paisagem. Os objetos estavam lá, assim como as árvores e as pessoas... Tudo que fazia era olhar. Era como uma pintura gigantesca que mudava um pouco todos os dias.
Estava pendurada em uma parede imaginaria entre duas esquinas. Ficava ali esperando ser admirada pelos trinta segundos que durava a travessia da rua.
Naquele dia, entretanto, a tarde despencava com as folhas estatelando-se de forma descuidada no chão e a pintura estava estranhamente deserta. Era o fundo maravilhosamente delineado.
Sentiu-se inexplicavelmente atraída por ele.
Era algo tão sedutor e ainda assim... Isento de pensamentos. Descomplicado. Momento degustável.
Quando deu-se consigo estava com os pés suspensos e o cabelo afoito chicoteando o ar. Sentada no gira-gira a toda velocidade. Aquele brinquedo, colorido demais e de nome óbvio, a fez em-beber os pulmões em nostalgia.
A tontura parecia infiltrar seu corpo a levando a um êxtase morno.
Memorável momento. O mundo fica dentro de nós e todo o resto é feito de plástico, deixando a marca: descartável.
Reciclar.
Que foi de tanto dar voltas que entrou no espírito de pensar em tudo que parecida estar permanentemente fora do lugar.
Desalinhava-se, alinhavava o in-costurável e sobre tudo ex-custuraria o que deveria se jogado fora.
A paixão platônica e inexplicável. O desejo insaciável que só é assassinado se provado. Os momentos que provados viram vício. A vontade de viver que parecida tantas vezes tão desconfortável.
E ainda assim a morte era para ela menos que um pequeno incomodo.
Tudo funciona de forma urobórica. O que é cruel e confortador, irritante e maravilhoso.
O que ontem era prazer amanhã é desgosto. Se não amanhã... Talvez depois de amanhã.
Que se sua morte era algo que lhe parecia relevante, o perturbante eram as mortes em vida. Temos todos: o início, a partida, o retorno louvado e a morte.
A cobra finca as presas salivantes no próprio rabo.
E somos heróis desenganados.
De virtudes que amadureceram demais e despencaram podres no chão.
Seus olhos acompanhavam as cores da pintura que se misturavam e davam adeus aos contornos banais que as aprisionavam. Quem sabe tudo poderia a(s)cender virando luz.
Não importava.
Lembrar do corpo desejoso da vontade que tinha de tocar aquela pele. Aquilo que a atraia e traia. Que era ressaca neste e no outro dia.
Consumia-se diariamente, revirava o lixo para achar algo mais que pudesse ser aproveitado. Tudo que cria é fantasia. Sente o gosto putrefato como romã colhida naquele dia.
O chocalho da cascavel era alto demais para ser ignorado. A víbora sempre da o bote. E tudo que ela sabia fazer era se deixar girar e mirar os pés chacoalhantes.
Já havia sentido aquele golpe. Dês-superlativando os fatos. Conhecia a queda querida.
Forçou a sola dos sapatos velhos, desamarrados e pueris contra o chão. O mundo dava voltas e ela sabia, estava parada no mesmo lugar.
O enjôo veio com a solitária que tentava vomitar.
O estômago contraiu.
De novo. E mais uma vez ainda.
Refluxo ácido empestiando a boca.
Mas nada do que não tinha foi posto para fora.
Bastou o saudosismo da fantasia que escorria dourada.
Levantou. Passos de boneca gigante.
O pior de tudo aquilo é que então não havia mais sobre o que pensar.
Foi até a calçada deixou a pintura para trás para que mais uma vez se torna-se paisagem.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Epifania tomando nescau na frente da TV ... (cafona que foi 31 de dez... )

Bananas

O problema das coisas é que se tornaram banais.
Foram despetalando sua importância e sozinhas embeberam-se em tons pastéis. Não gosto, contudo, de discutir com as coisas, seja porque não me respondem, seja porque quando o fazem são sem-sentidistas.
Cansei de papagaiar com elas.
O duelo mental estagnou-se.
A importância frágil tomou um sorvo longo de banalização e perambula em algum lugar de minhas idéias.
Se passo as mãos pelo corpo sinto-o corpo como é.
Sinto-o carne como sempre foi. E perdôo-me de pensar sobre máculas ou poesias alvaresianas. A definição bastou-se.
Foi de olhos abertos que vi e com os mesmos, fechados, que deixei de refletir.
No escuro entre a imagem e fantasia não há como ver se não a brasa morna que encandece com o trago amargo. A fumaça branca dissipa-se como se bailasse, bailarina, como se algo de elegante ali houvesse, como se eu pudesse ver o belo ali por um instante vago que fosse.
O instante já é morto.
Vai-se a fumaça branca do cigarro branco seguro nos dedos esbranquiçados.
Olho acalentando meus sentidos. Provando da sinestesia que escorre pelos cantos de meu corpo.
Retornando à banalidade das coisas.
Se há, pois, o nojo ele enterrou-se e a lápide ficou vazia o funeral desocupado. O cheiro do cigarro naquele corpo perturbante...
O cheiro.
O gosto.
O corpo.
Já não soa repudio, é nota desafinada do acorde daquela sinfonia. Semi-breve.
Possuo então. Possuo porque posso e é simples. O pudor sabe se consumir. Minhas mãos vão ao encontro e depois meus pés vão embora. Como se só os corpos pudessem fazer os momentos e só a banalização pudesse fazer ir-se embora.
Meu corpo é corpo como é, feito de carne como sempre foi e quando está vivo já não sabe mais se vive de maneira augustiana, talvez os anjos tenham voado ou decaído.
Que minha completude é êxtase. Momento. Que meu vazio é eternidade. Pensamento.
Que entre o horror e o encanto, entre o amargor e o gozo, entre a verdade e a felicidade sempre existi. Estavam todos em persona ali aos berros nos meus ouvidos. Palavreavam gritos. Minhas partes se punham a escutar.
Escutavam.
É estrada. É rio. É seco. É caudaloso. Importa que têm curvas e o problema é que em algum momento as coisas se tornaram banais.

Re postando -- Calibre 39

Calibre 39


As janelas estavam todas abertas, as portas escancaradas, porque o temporal se aproximava e assim a chuva poderia entrar e molhar os móveis. Ele estava ali no meio da sala, sentado observado a meia garrafa de vodka, sentia-se tão feliz quando a manchete do jornal do dia anterior.
Não queria mais mentir, fingir velhas terceiras intenções que haviam morrido dentro de algo que pareceu vivo um dia. O amor era um capricho de seu ego. Era tudo mentira. Mas o mantinha vivo para sentir algo dentro de seu peito, e talvez quando acabasse, ou agora que tudo parecia terminado, pelo menos dentro daquela garrafa, tudo parecia tão vago.
Não chegava nem mesmo a ser um sonho bom, eram segredos sussurrados e vividos por viver, sofridos pela necessidade de se ter algo, pelo gosto e prazer palatável daquela insônia soberba.
Desejou que seus joelhos não doessem mais e isso bastou para que sorrisse, os lábios grossos estavam rachados pelo tempo, pelo inverno que havia passado e ele havia esquecido mais uma vez de passar o protetor, isso só deveria ser preciso no verão...
O cheiro de álcool era perfume de rosas impuras e antigas que agora diante de seus olhos tinham qualquer beleza visceral, queria matar, matar as flores, matar tudo aquilo que havia vivido, matar a sede entranhada na garganta. Passou a mão na garrafa e despejou seu conteúdo já plácido e sem gosto dentro da boca.
Queria matar a sede, mas ficou mais sedento. Afrouxou os dedos e deixou que o vidro caísse em um baque surdo e rolasse pela madeira escura do chão. Estava só, percebeu que tudo que havia feito durante a vida fora evitar a dor, então foi submerso pelo entorpecimento abençoado do tédio.
As árvores que plantara no jardim e todos os frutos de sua vida agora levemente apodrecidos riam dele. Transformaria todo aquele tédio em música, e cantaria, cantaria para espantar os próprios demônios internos inexistentes.
A vida era breve, curta demais, mas todos em algum momento já desejaram desesperadamente sair, ou sumir, levar-se dali ou serem levados. A vida era imensa, pecaminosa e agradável por ser assim. Talvez aquele fosse seu momento.
Teria que arrancar suas raízes, tirar os grilhões, sair da caverna, chegar ao jardim e rir das arvores que riam dele. Seus lábios grossos descosturados estalariam e seria como não soube ser. Descontrole agridoce levemente ácido de uma manhã sem ressaca.
Levantou-se. Com certa dificuldade, pois não estava acostumado a andar sem ter um destino, seus olhos habituados com os dias de permanente penumbra introspectiva espantaram-se com a claridade vinda do jardim, os ouvidos agraciaram-se com o riso e o olfato com o cheiro de álcool vindo das rosas.
O álcool olhou para a garrafa que no chão olhou-o de volta. Estavam ali. O seu amor pela metade engarrafado, sua vida em um bafo senil de um ébrio que não se reconheceria no espelho no dia seguinte.
Refletiu sobre seus próprios pés nada calejados e pegou o artefato precioso do chão acariciando-o como faria com um filho, primogênito que jamais tivera. O líquido contido ali era transparente, de uma translucidez pura, triplamente destilado, alimento da surrealidade e combustível da falta de insanidade.
A pureza de seu corpo, a impureza de seus atos, a pecaminosidade na sua falta de viver tudo estava diante de seus olhos, e fora vendido em um supermercado qualquer. As respostas as suas faltas de dúvidas compradas em uma prateleira velha e pagas com um uma nota de 20. Foi uma epifania barata, vulgar e levemente prostituída.
Quem sabe ainda se fosse um champagne, ou um vinho caro? Teria sido mais nobre. Ou se estive a beira da morte, ou ainda visto um milagre, ou ter sido perdoado.
Não, as havia encontrado na metade de uma garrafa de vodka. Sorriu. E seu sorriso abafou temporariamente o escândalo que vinha do jardim e a luz que vinha do sol incomodar seus olhos fracassados.
Nada havia saído do lugar ou estava mais ou menos verde do que ontem. Apenas haviam passado pela translucidez daquela vulgaridade. Foi até a cama onde a mulher dormia sem poder jamais entrar naqueles pensamentos esclarecedores.
Olhou os lençóis brancos e sentiu prazer por eles, como se pela primeira vez tivesse percebido que eles eram acetinados. Deitou-se, as portas ainda estavam abertas, a chuva ainda chegaria a qualquer momento, mesmo assim, deitou-se e junto ao seu peito ficou a garrafa, ao lado da cama a arma do crime.